A Tentação da Dispersão nos Estudos para Concursos

Por  •  27 mar 2012  •  Aprendizagem, Como se Preparar  •  17 Comentários
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Você já foi ou costuma ser vítima da tentação da dispersão, enquanto está empreendendo seus estudos para o concurso público? Como isto se manifesta? Como evitar ou neutralizar e quais os prejuízos que pode causar?

O objetivo do presente texto consiste do desenvolvimento de algumas considerações sobre este perigoso fenômeno.

Primeiramente vamos à descrição. No que consiste e como se manifesta essa tentação da dispersão?

A tentação da dispersão trata-se do fenômeno que ocorre quando estamos estudando e nos vem à mente pensamentos que não guardam relação com o objeto de estudo. Daí nos rendemos a tais pensamos e embarcamos na viagem que ele nos convida a fazer. Por vezes vamos longe, nos distanciando completamente daquele objeto de conhecimento com o qual estávamos mantendo contato. Geralmente, embarcar nesta viagem de dispersão nos proporciona alguma sensação agradável, sendo que, na realidade, o fato de estarmos nos dando algum alívio ou proporcionando tal sensação passa a ser um complicador a mais.

Também é possível que a tentação da dispersão se manifeste por meio de atitudes.

Mas no caso do pensamento, poderíamos parar para indagar: por que por vezes pensamos em algo que aparentemente não tem qualquer relação com os estudos?

No fundo, a causa do problema é a solução para as mais relevantes necessidades que temos ao longo da preparação para concursos públicos: a lógica associativa do funcionamento cognitivo, principalmente da memória.

Ou seja, quando lembramos de algo de forma não voluntária, consciente e planejada, é porque tivemos contato com alguma informação ou experiência relacionada ao pensamento que foi recordado. (Clique aqui para ler Como usar a Lógica Associativa da Memória nos estudos)

O neurologista Antonio Damásio relata uma situação na qual repentinamente e de forma não planejada lembrou de um amigo. Daí começou a refletir o motivo de ter aparecido à mente a imagem do amigo, já que não havia, aparentemente, nada relacionado a ele. Intrigado com a situação e avançando na reflexão, descobriu que havia acabado de se movimentar em sua casa, andando de um modo parecido com o amigo. Ou seja, a atividade psicomotora e inconsciente disparou o mecanismo associativo, que provocou a evocação da imagem do amigo (Damásio, Antonio R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, págs. 136/137).

Com isto, constatamos que, até mesmo de maneira inconsciente podemos ser provocados a ter pensamentos desvinculados dos estudos. Tudo por conta do mecanismo associativo.

Assim, na realidade, a tentação da dispersão consiste num estímulo, em termos de pensamentos ou eventos externos, que passam a ter mais relevância que o estímulo eleito como alvo, ou seja, o objeto de conhecimento a ser estudado.

Neste sentido, vale lembrar que a concentração consiste numa função cognitiva primária, a qual se sujeita a uma lógica de seletividade de estímulos. Isto é, me concentrar significa desconsiderar determinados estímulos para valorizar aquele que elegi.

Por outro lado, ainda conforme a referida sistemática cognitiva, os fatores de desconcentração podem ser endógenos, que seriam os pensamentos que produzimos, ou exógenos, correspondentes aos estímulos externos-ambientais. Daí porque o local de estudo deve ser escolhido com bastante cuidado.

Portanto, a tentação da dispersão consiste num estímulo muito forte e relevante, que nos toma de forma significativa, aparentemente irresistível, bem como tentadora, tirando nosso foco atencional do objeto de estudo.

No caso dos portadores do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade – TDAH, este fenômeno ganha um status patológico e conta com causas de natureza neufisológicas e bioquímicas. Exatamente por isto, a intervenção medicamentosa pode ser necessária. Mas obviamente que pressupondo um diagnóstico preciso, responsável e com a atuação de profissional habilitado.

Estabelecidas as mencionadas premissas a questão que se coloca é: mas como combater ou neutralizar as tentações da dispersão?

Conforme venho sustentado reiteradamente, o primeiro passo é tomar consciência do fenômeno. Não apenas tomar consciência, mas também entender o seu funcionamento.

Isto é, se estou sendo atentado à dispersão é porque há um estímulo que está tentando furtar meu foco atencional, sendo que eu havia eleito como objeto da atenção o estímulo correspondente ao estudo. E mais, este estímulo tentador não veio do nada nem de graça, ou seja, sendo um pensamento, foi determinado pela atuação do mecanismo associativo.

Mas para reverter a presente situação considero que há duas atitudes principais a serem consideraras. A primeira seria, conscientemente e ciente do funcionamento do presente processo, tentar ignorar o estímulo e retomar o estudo.  Ou seja, se sei que estou sendo tentado por um pensamento indevido, não vou alimentá-lo e retornarei ao meu estudo.

O segundo, um pouco perigoso, seria enfrentar. Na caso, também por meio de um processo consciente, procura-se entender a causa de origem do estímulo, se convence de que não faz sentido o valorizar e retorna-se ao estudo. Repare que no caso não se ignora, mas procura-se entender a origem, como caminho para o ataque e neutralização. Porém, é preciso ter cuidado para não alimentar o estímulo e embarcar na viagem prazerosa para a qual somos tentados.

Como estratégia secundária, também caberia usar alguma muleta. Uma primeira seria, diante do aparecimento da tentação, adotar o famoso “só por agora não vou dispersar”, “só por este minuto não vou dispersar”, “só por esta hora não vou dispersar”.

Outra seria adotar um objeto, como aquelas bolinhas de apertar, para usar no momento de surgimento da tentação, inclusive criando um emparelhamento de estímulos, ou seja, quando a tentação vier, aperto a bolinha e retorno ao foco atencional correspondente ao estudo.

Vale lembrar, conforme alertado em outros textos, que também é preciso trabalhar os fatores ambientais. Ou seja, é importante buscar um local de estudo adequado, o qual não proporcione estímulos externos, e no deslocamento já tentar evitar a sujeição a estímulos relevantes, como no caso de determinadas músicas, conversas ao telefone ou rádio de notícias.

Naturalmente que é possível construir outras estratégias. Inclusive, se tiver, peço que deixe a sugestão e dica em forma de comentário.

Mas o fundamental é dominar a tentação.

Bom estudo e cuidado com as tentações!

17 comentários até agora. Deixe o seu.

  1. Marcos Pereira disse:27 mar 2012 às 8:21 am · Responder

    Dr. Rogério, geralmente seus artigos são excelentes.
    Mas alguns são excepcionais, sendo justamente o que ocorre com o presente artigo! Descreve perfeitamente meus constantes episódios de dispersão e, ademais, elenca alternativas promissoras para “arrefecê-los”.

    Mais uma grande contribuição, obrigado!
    FOCO NO PROCESSO!

  2. Renata Bertoluccir disse:27 mar 2012 às 10:43 am · Responder

    Muito obrigada prof. por mais um excelente (e prático) texto!
    O seu site é leitura diária (e obrigatória para a vida e não só para a vitória nos certames públicos).
    Abraço afetuoso de uma fã

  3. Tales Menezes disse:27 mar 2012 às 12:02 pm · Responder

    Dr. Rogério, parabéns pelo artigo! Muitas vezes o fato de sofrermos com antecedência é o que mais prejudica. É o que ocorre comigo, infelizmente. Por exemplo, quando começo a estudar, quase que automaticamente eu penso: “será que vai ser suficiente?”, “será que vou conseguir estudar tudo?”, “será que esta matéria vai ser cobrada?”, “não é melhor eu estudar logo aquele capítulo em vez deste?”, etc. Quando eu percebo, já perdi mais da metade do tempo que eu tinha para investir no estudo e minha cabeça já está cansada, sendo inevitável a desistência da continuidade do processo de preparação/estudo. É algo que preciso melhorar/amadurecer. Em que pese eu saber das prioridades, tenho bastante dificuldade de pôr as “vontades” em prática. Forte abraço!

    • Junior disse:27 mar 2012 às 9:28 pm · Responder

      Também sofria muito desse problema (chamado ANSIEDADE), mas estou conseguindo superá-lo aos poucos com auxílio de dois instrumentos:
      - bom planejamento;
      - fracionamento e redução das metas (metas de curto prazo);
      Com isso acabo não me preocupando tanto com o amanhã, mas sim em aprender o máximo hoje. O amanhã então virá como consequência, tenho certeza disso …
      “a constância do propósito faz o sucesso”

  4. Júlio disse:27 mar 2012 às 12:07 pm · Responder

    Após a leitura do presente artigo, vou passar a ter mais controle dos momentos em que fico me imaginando no exercício do cargo pretendido.

  5. Pedro Ivo disse:27 mar 2012 às 7:34 pm · Responder

    As tentações exógenas são de solução menos complexa, agora as endógenas… são dureza. Uma técnica que eu aprendi para os momentos de tensões é escrever as minhas preocupações. Assim, se eu tenho um projeto cujo prazo está se encerrando e eu não para de pensar nisso eu anoto um lembrete de finalizá-lo tal dia e hora. Igualmente, se a leitura não agrada por ser sufercial anoto a necessidade de encontrar material adequado, ir a livraria, visitar sites… Isso tem funionado.

  6. Carlos disse:27 mar 2012 às 7:55 pm · Responder

    Olá. Outra dica seria: “anotar”, é sim…simplesmente anote. Quando estou estudando, constantemente vem em minha mente vários assuntos que não tem nenhuma ligação com meu programa de estudos (coisas do trabalho, da família etc.), as vezes é algo importante que preciso lembrar depois. Assim, adotei um método, qual seja: as distrações insignificantes faço aquilo que o Dr. Rogério já disse; as distrações que considero importante, anoto (usando apenas uma palavrinha, sem perder tempo) em um pedaço de papel e pronto. Minha mente sabe que aquilo está guardado e não precisa trazer, constantemente, os alertas (distrações).

    • Helga Maria disse:29 jun 2012 às 4:32 pm · Responder

      Oi Carlos,

      Aprendi esta dica com uma amiga de estudos: ela andava com um caderninho de anotações e ia anotando, principalmente durante os estudos. Eu uso bastante o calendário do celular. Agendo o lembrete para daqui a 1h ou “amanhã cedo” e tranquilizo em saber que será resolvido porém em outro momento.

  7. Rafaela Cavalcanti disse:28 mar 2012 às 10:06 am · Responder

    Olá Dr. Rogério!
    Excelente matéria, parabéns!
    Gostaria de compartilhar um método muito simples de concentração que encontrei na Revista Galileu. Chama-se Método Pomodoro. Conhece?
    Usei o método para minha semana de provas na faculdade e ele foi a salvação para a minha constante dispersão!
    O Pomodoro (que significa “tomate” em italiano!) tornou-se meu melhor amigo nos estudos!rs
    Deixo abaixo o link com a descrição dada pelo Wikipédia
    Mas recomendo muito q procurem baixar a Revista Galileu (Ed. 243 – Outubro de 2011) que está cheia de dicas de concentração e técnicas de estudo!
    Conheça o método e diga o que achou!
    Att.
    Rafaela

  8. Leonardo disse:8 abr 2012 às 1:04 pm · Responder

    Tente imaginar que o pensamento “tentação” é um filme de uma fita cassete… Daí, rebobine ele mentalmente, retire do seu “vídeo cassete” ( mente), guarde-o na estante e pegue outra “fita” (pensamento bom, positivo, como passar no concurso) e bote para rodar…

    Essa técnica é interessante para pensamentos específicos que perturbam a cabeça das pessoas, como fins de relacionamento, traumas, perdas de amigos ou parentes etc…

  9. Silvana Arrais disse:29 jun 2012 às 12:29 pm · Responder

    Nossa, amei esse texto! Estava mesmo precisando de dicas pra dar um jeito nessa dispersão.
    Gostei muito da dica da colega sobre o método Pomodoro.
    Pesquisei e apliquei o método. Realmente é uma excelente dica para pessoas como eu, que divagam durante os estudos… Obrigada!

  10. Érica Proença disse:29 jun 2012 às 1:19 pm · Responder

    Com certeza as armadilhas que surgem nas hora que estamos estudando são várias, e cada vez mais nos sabotamos, eu me considero uma auto-sabotadora mestre, pois quando não são os fatores externos embarco nessas viagens mentais. De grande valia o texto em tela professor. Obrigada! Parabéns.

  11. Rodrigo Mello disse:29 jun 2012 às 3:10 pm · Responder

    Parabéns professor. Excelente artigo, como sempre. Acredito que “tudo” nessa vida possui um estágio e pode ser resolvido com determinação e coragem. Felizes aqueles que decidem tomar o primeiro passo: “tomar conhecimento e decidir entender o seu funcionamento”. Feito isso, tenho certeza ser muito melhor a segunda solução/atitude por ser ela “definitiva”: mas claro, a segunda solução depende de coragem, determinação e saber, realmente, priorizar aquilo que é importante.

  12. Marcelo Miranda disse:30 jun 2012 às 5:00 pm · Responder

    Prof. Rogerio Neiva,

    Tenho uma estratégia bastante interessante, mas de antemão, digo que ela deve ser utilizada com acautelamento.
    Quando estou em um ambiente desfavorável para o estudo, como uma biblioteca em que algumas pessoas inconvenientes começam a conversar alto (fator externo); ou quando estou muito disperso por algum motivo, com muita dificuldade em manter a concentração (fator interno), eu pego o meu MP3 player e coloco nos ouvidos. Aparentemente, em certas situações, a música é mais fácil de ser ignorada do que os estímulos externos (como no caso de pessoas conversando, ou da música ruim de seu vizinho) ou internos (a preocupação com um problema de saúde, a briga com a namorada, etc.).
    Todavia, em condições normais, pude perceber a partir da análise dos dados objetivos do meu rendimento de estudos (número de páginas por hora) que o MP3 player mais atrapalha do que auxilia.
    O que quero enfatizar é que o MP3 player é um auxiliar para superar situações nas quais a concentração por algum motivo (externo ou interno) se encontra prejudicada.
    Assim, no exemplo das pessoas conversando na biblioteca, assim que elas forem embora, aconselho que pare de escutar o MP3 player. Ou, no caso do rapaz que esta chateado por ter brigado com a namorada, depois de uma hora ou duas horas de estudo talvez essa chateação já tenha desaparecido, de forma que será mais produtivo continuar estudando sem o MP3 player.
    Mas um cuidado! Eu, pessoalmente, tenho uma habilidade muito grande para ignorar a música e me concentrar no estudo. Normalmente na primeira meia hora de estudo, me parece ser mais fácil deixar de prestar atenção na música do que não me dispersar em meus próprios pensamentos. Os pensamentos são muito mais perigosos do que aquela musiquinha de fundo. A música preenche a cabeça e não dá espaço para divagações. Quando ligo o MP3, fica só a música e o estudo, e aí então eu ignoro a música e me volto para o estudo. A partir de um certo ponto, elimino a música (desligo o MP3), e fico apenas com o estudo. Esse é o meu método.
    Espero que comente.

  13. Fernanda Neves disse:2 jul 2012 às 8:28 am · Responder

    Professor Rogerio, no meu caso me disperso muito com determinadas materias por advogar e dai remeto meus pensamentos aquele processo especifico ou cliente na busca de uma solução. Isso me atrapalha muito, pois apesar de poder ser visto como um caso concreto acabo por me angustiar já que não queria ter pensado naquilo. O que fazer?

  14. Gi disse:9 jan 2013 às 2:25 pm · Responder

    Que texto maravilhoso, prof. Neiva!
    Parabéns!
    Já fui muito ansiosa. Hoje, tento contorná-la com a certeza de que não adianta ficar assim, só atrapalha o aprendizado…, se não passar em determinada prova, passarei na próxima… a vida é uma caixinha de surpresa…

Menções deste artigo em outros sites:

  1. Blog Exame de Ordem » A tentação da dispersão nos estudos

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