Como Memorizar: uma Técnica Simples e Eficaz!

Por  •  10 jan 2012  •  Aprendizagem, Como se Preparar  •  30 Comentários
Técnicas Mnemônicas e Concursos Públicos

Recentemente passei por uma experiência que considero muito rica em termos cognitivos, bem como passível de proporcionar lições interessantes para aplicação à preparação para concursos públicos.

Eu havia mudado de Vara do Trabalho e na nova Vara o colega titular estabeleceu um sistema de montagem de pautas de audiências, segundo o qual a marcação de uma nova audiência deveria observar uma codificação de cores. Assim, para cada tipo de audiência a ser marcada havia uma cor correspondente.

Já de imediato fiquei um pouco perdido e até assustado, pois eram quatro cores para quatro possibilidades de modalidades de audiência. E para cumprir com a regra, o colega havia disponibilizado aquelas canetas Bic de quatro cores (azul, vermelha, preta e verde).

O primeiro problema era me lembrar da necessidade de observar o sistema de cores. Sempre que ia marcar uma audiência na pauta, atividade não delegada à Secretária de Audiências – até pela responsabilidade que deveria assumir, bem como pela relevância do ato e conseqüências de marcar uma audiência inadequadamente, era lembrado pela Secretária de Audiências de que deveria observar o sistema de cores.

O segundo problema era me lembrar das cores. Havia um papel com a descrição e explicação no monitor da Secretária de Audiências, ao qual ela recorria para me esclarecer a cor correspondente à situação processual e modalidade de audiência.

Passados alguns dias, não obstante o incômodo que me causava esta confusão, passei a me questionar: como eu, que tenho me dedicado há um bom tempo ao estudo da aprendizagem e dos fenômenos cognitivos, não conseguia lembrar de um simples sistema de codificação de cores, importante, útil e necessário à minha atividade profissional? Que contradição e incoerência, o Prof Rogerio Neiva, que se dedica ao estudo, à pesquisa e produção de conteúdo sobre técnicas de estudo, não conseguir se lembrar de um simples sistema de coloração? Passei a imaginar o que um advogado ou advogada que estivesse realizando audiência e presenciasse a minha confusão, sendo um candidato ou candidata a concursos públicos que acompanhasse o meu trabalho, poderia estar pensando diante daquela situação.

Daí decidi: era preciso tomar uma atitude e resolver o problema.

Assim, ao começar a refletir sobre o assunto, em menos de 10 minutos resolvi tudo!

E o que fiz?

Construí uma estratégia muito simples e eficaz, a partir da mobilização de uma série de premissas, conceitos e construções teóricas. E como foi esta técnica?

Estabeleci uma relação associativa relevante entre as cores e a modalidade de audiência.

O sistema funciona da seguinte forma:

Repare que a seqüência em que coloquei as modalidades de audiências nesta planilha já conta com um sentido lógico-evolutivo, o qual facilita a compreensão, envolvendo a dinâmica do fluxo do procedimento no Direito Processual do Trabalho.

Mas muito bem, o fato é que construí as estratégias associativas da seguinte forma:

- Verde – Nova Inicial ou Nova Uma (adiada): a cor verde, para mim, lembra neutralidade. Lembrei que no caso de sistemas de negociação de ativos em leilões, como bolsa de valores e câmbio, o verde indica que não há variação no preço, o que corresponde à neutralidade. Se ocorrerá uma nova audiência una ou inicial, significa que nada ainda aconteceu no processo.  E este novo ato processual será apenas uma repetição do primeiro, o qual não atingiu seu resultado;

- Vermelho – Instrução: sinal vermelho, alerta vermelho! Agora será um ato que exigirá muito mais do Juiz, no qual os ânimos e tensões podem ser exteriorizados. Neste ato se tentará buscar a verdade e incidentes processuais, bem como desgastes, podem ocorrer. Aproveito para lembrar que esta audiência é marcada na forma do art. 849 da CLT ou art. 825 da CLT (não comparecimento da testemunha no rito ordinário e no sumaríssimo na forma do art. 852-H,§3º da CLT));

- Preto – Encerramento da Instrução Processual: preto lembra fim de linha, “dead line”! Agora acabou, o que tinha que ser produzido de prova já teria que ter sido produzido;

- Azul – Julgamento: para o Juiz aqui está cumprida a sua missão, trabalho concluído, o que significa alívio! Após o julgamento, para o Juiz, está encerrado o seu trabalho, ou seja, fica tudo azul.

Pronto, problema resolvido. Não esqueço mais as cores das audiências.

Mas a grande questão que lhe interessa, de modo a promover a aplicação ao contexto da preparação para concursos, é o seguinte: o que está por trás disto e como utilizar!

Quanto ao sentido desta simples técnica, é possível mobilizar vários fundamentos e teorias da aprendizagem para a sua compreensão. Mas vou me limitar ao conceito relacionado ao modelo de aprendizagem mecânica e de significados.

Teoricamente, a aprendizagem mecânica é aquela que ocorre quando não há compreensão de sentido quanto ao objeto de conhecimento, correspondendo ao famoso decoreba. Já a aprendizagem de significados ocorre quanto compreendemos o sentido daquilo que nos apropriamos intelectualmente.

Partindo destas premissas, desenvolvi um terceiro conceito, o qual corresponde ao que denominei de aprendizagem relativamente de significados. Abordei este conceito no livro que escrevi sobre o tema da preparação para concursos públicos (Como se Preparar para Concursos com Alto Rendimento, Ed Método), bem como foi objeto da apresentação que realizei no IV Simpósio Internacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia (clique aqui para ler Preparação para Concursos Tratada como Ciência).

Neste sentido, a situação que descrevi, numa primeira compreensão, se aplicaria exatamente ao terceiro conceito. A aprendizagem relativamente de significados envolve a situação em que usamos um conceito ou construção que tenha sentido para nós, associando à informação que pretendemos nos apropriar. Mas este sentido dado não é o sentido preciso, correto e específico do objeto de conhecimento. É o que ocorre no caso das técnicas mnemônicas.

Porém, após construir a estratégia mencionada e explicar na Vara como havia feito para memorizar as cores, descobri que as associações que fiz foi exatamente o que o autor do sistema havia pensado. E aí, no caso, surgiu um detalhe importante. É que na verdade, então, o que houve foi uma aprendizagem de significados pura, pois as associações que fiz correspondiam à realidade do conceito estudado.

Outro aspecto relevante é que por trás disto temos a aplicação da lógica associativa da memória, o que tem um sentido inclusive de natureza neurofisiológica.

Feitos estes esclarecimentos, a idéia é que você também pode construir estratégias como esta em relação a informações relevantes e passíveis de cobrança na prova. E considero isto importante principalmente em relação aos conceitos arbitrárias, as quais nos pegam nas provas. As informações arbitrárias são aquelas que não contam com um sentido lógico, como no caso dos prazos processuais e quóruns do processo legislativo (clique aqui para ler sobre os conceitos arbitrários e lógicos e como trabalhar nas provas de concurso).

Mas enfim, com todas as considerações, explicações e esclarecimentos apresentados, espero que a situação narrada possa ter algumas utilidade e aplicabilidade no seu processo de preparação para o concurso público.

E que a cor mais importante que prevaleça para você ao final seja o azul!

30 comentários até agora. Deixe o seu.

  1. Antonio disse:11 jan 2012 às 4:52 pm · Responder

    Muito boa esta técnica! Vou usar!

  2. Cláudia disse:11 jan 2012 às 4:55 pm · Responder

    Obrigado Prof Neiva por mais este texto!!!
    O Sr sempre nos supreende. O que me dá mais segurança é que o Sr passou em concurso difícil e estuda cientificamente a aprendizagem. Como o Sr diz, não é achismo.
    Hoje o que mais tem é gente que ensina as pessoas a passar em concurso, mas ou nunca passaram em concurso difícil ou passaram mas nunca estudaram cientificamente o assunto.
    O Sr. é a única pessoa que fez os dois.
    Valeu! Contunue o seu trabalho em 2012!
    Bjs!

  3. Robert disse:11 jan 2012 às 4:58 pm · Responder

    Prezado Prof Rogerio Neiva,
    Além de nos dar uma pequena aula sobre Processo do Trabalho, nos ensina uma valiosa técnica de estudo.
    Inclusive, no Exame de Ordem, apesar de ter passado, errei uma questão sobre audiência que se tivesse lido o seu texto não erraria.
    Estou na batalha dos concursos, mas advogo um pouco e gostaria muito de um dia ter a sorte de fazer uma audiência tendo o Sr como Magistrado.
    Obrigado!
    Robert

  4. Eduado Silva disse:11 jan 2012 às 5:00 pm · Responder

    Mais uma grande contribuição que ganho por acompanhar este blog!
    Sempre fico me perguntando: qual será o tema da próxima semana? E sempre me surpreendo no bom sentido.

  5. Fernanda disse:24 jan 2012 às 2:25 pm · Responder

    Excelente conteúdo Professor! Obrigada!
    Temos que divulgar profissionais como voce,
    que dominam tais didáticas e tais estratégias,
    conduzindo cada aluno a um melhor e mais
    eficiente resultado em seus objetivos de
    estudo.
    Felicidades, sucesso em 2012!

  6. Aramy Viterbo Santolim disse:19 mar 2012 às 10:50 am · Responder

    Achei muito útil, prático e eficiente o seu método de memorização. Já estudei por outros, mas o seu é o melhor. Recomendá-lo-ei. Cumprimentos. Aramy

  7. José Luiz disse:13 abr 2012 às 10:09 am · Responder

    Prezado professor, muito bom o texto e a técnica empregada é muito útil para não tornar o estudo monótono. Grato, José Luiz.

    • Rogerio Neiva disse:13 abr 2012 às 11:42 am · Responder

      Caro José, obrigado pelo incentivo e feedback!
      Abcs!

  8. Anderson Marques disse:13 abr 2012 às 10:49 am · Responder

    Pura verdade! Nunca me dei bem com a decoreba sem sentido! Aliás, sempre foi um desafio decorar a própria “proposta” mneumônica (siglas etc) de um autor ou professor para apreender um determinado conteúdo. Excelente o caminho de empreender uma lógica associativa, a partir de associações que correspondam à realidade do conceito estudado. Perseverar é ter êxito!

    • Rogerio Neiva disse:13 abr 2012 às 11:55 am · Responder

      Muito bem Anderson!
      Considero que esta seja a atitude de quem leva o estudo a sério e não está atrás de pirotecnia motivacional.
      Abcs!

  9. Rafael Castelo disse:13 abr 2012 às 11:31 am · Responder

    Muito bom. Excelente.
    Desenvolvi uma técnica semelhante a esta há mais de um ano, sendo que um pouco mais completa e lógica, contudo voltada exclusivamente para estudante do curso de Direito.
    Para os demais cursos acadêmicos a técnica poderá e deverá ser alterada e adaptada, contudo perderá parte da sua inteligência e do seu raciocínio lógico.
    Parabéns mais uma vez!!!

    • Rogerio Neiva disse:13 abr 2012 às 11:53 am · Responder

      Boa Rafael! Inteligência no processo de estudo e apropriação intelectual do conhecimento.
      Abcs!

  10. Andrew Girogi disse:20 abr 2012 às 10:48 am · Responder

    Muito bom, professor.
    Este tipo de técnica tem me ajudado bastante.

  11. Ana Carolina - DF disse:24 jul 2012 às 3:02 pm · Responder

    Muito bom!
    Eu crio algumas técnicas dessas também (e não faço ideia de onde elas enquadram-se no rol dos especialistas).
    Só sei que fuincionam e que ajuda muito!
    Tomo a liberdade de compartilhar uma das primeiras que inventei e que acho engraçadinha:
    Eu estava na 4ª ou 5ª série e tinha que saber que águas pluviais referem-se às decorrentes da chuva e que as águas fluviais são aquelas oriundas dos rios. Bem, eu teria prova em breve e no afã de literalmente decorar, fiquei repetindo pra mim mesma as siglas PC (P de pluvial, C de chuva) e FR (F de fluvial, R de rio). Ainda assim, senti a necessidade de obter alguma outra forma de assimilar os conceitos, sem ser apenas e puramente pelo decoreba vazio. Foi então, que entrou em cena o seguinte gancho assossiativo. Nessa época, havia ocorrido o falecimento do PC Farias e o noticiário sobre isso estava intenso. (Acredito que já nem preciso concluir né?!)
    Simplesmente, associei aquela minha necessiadade de ter os conceitos na ponta da língua, com o nome do PC Farias. Assim, PC (Pluvial => Chuva) e Farias (Fluvial => Rio). Até mesmo o nome “Farias” contém a palavra “ria” que é a mulher do rio! Além disso, por exclusão, ao lembrar-me de um dos conceitos, o outro é naturalmente o faltante, sem necessidade de método de assimilação.
    A partir de então, combinei comigo mesma que sempre que precisasse lembrar dos conceitos, iria lembrar do PC Farias. KKKKKKKKKKKK
    E até hoje é assim! E olha que estou finalizando a segunda graduação!
    Aliás, não sei se sou a única que teve dificuldade em aprender esses dois conceitos, mas não me importo se eu for.

    Talvez, olhando de fora, pareça algo complicado, mas isso acontece num piscar de olhos no nosso cérebro!

    Obrigada Dr.!!!

  12. alexandre magno da silva disse:22 out 2012 às 12:29 am · Responder

    faço doutorado e nao estou focando muito nos estudo melhor ,meu tempo esta muito complicado gostaria de um remedio para ativasr mais a memoria

  13. Leonardo disse:29 nov 2012 às 4:12 pm · Responder

    Professor, parabéns pelo site e pelas informações. Saí de link em link e acabei chegando neste post mais antigo. Sinto que apropriar as informações arbitrárias fica fácil com esse sistema, e mais fácil ainda quando os conceitos associados são os mais simples possíveis. Por exemplo, após ler o texto, memorizei as cores seguindo a evolução das frutas: começa verde, amadurece no vermelho, a colheita é preta (a fruta morre?), e a pessoa fica azul de felicidade ao comê-la!

    • Rogerio Neiva disse:1 dez 2012 às 10:31 pm · Responder

      Boa associação Leonardo! Não havia pensado nesta possibilidade…Abcs!

  14. VERA FLORES disse:28 jun 2013 às 9:44 am · Responder

    Nossa estou maravilhada, espero aqui achar problemas com meus medos nos estudos.Eu tenho grandes dificuldades de concentração sou muito avuada.agora achei alguém que ensina do jeito que eu sempre,quis. Vou recomendar.e estudar aqui.entrei em vários sity,e nada.obrigada prof. me ajude sempre.abraço.

  15. Jaciara disse:4 set 2013 às 4:47 pm · Responder

    Obrigada pela dica, já comecei a aplicá-la.

    Jaciara.

  16. Donízio disse:27 mai 2014 às 10:54 pm · Responder

    Gostei. obrigado pela dica. Vou usa-la sim!

Menções deste artigo em outros sites:

  1. Blog Exame de Ordem » Como memorizar: uma técnica simples e eficaz!
  2. Como estudar e fazer revisão com edital do concurso público publicado
  3. Como estudar para concursos públicos aprendizagem o todo e as partes
  4. Como ter concentração sem dispersão no estudo para concursos públicos
  5. Blog Exame de Ordem » A tentação da dispersão nos estudos
  6. Estudo para Concursos Públicos Estratégia Comparativa Memória e Provas
  7. Estratégia para Estudar Programas de Concursos Públicos Extensos
  8. Como Estudar Memorizar e Aprendizagem para Concursos Públicos
  9. Técnicas Mnemônicas Memórias Episódicas e Provas de Concursos Públicos
  10. Técnicas de Memorização « Washington Barbosa - Para Entender o Direito

Deixe um Cometário