Recentemente, ao iniciar a minha primeira aula de um curso voltado à preparação para o Exame da OAB, vendo rostos angustiados e assustados com o clima quase que de terror em torno do referido exame, me vi obrigado a levantar a pergunta indicada no título do texto, para em seguida trabalhar a resposta. Daí indaguei aos alunos: apenas assistindo as aulas é viável passar na prova?
Muito bem, considero que a resposta exige a reflexão de aspectos empíricos, bem como da mobilização de construções e conceitos de caráter mais técnico e científico, estabelecidos no âmbito das ciências voltadas ao estudo da aprendizagem.
Neste sentido, primeiramente é preciso entender que o objetivo de todos os candidatos envolve a apropriação e disponibilidade intelectual de informações no momento da prova. E o que isto significa, em termos cognitivos? Significa, a rigor, a capacidade de registrar e evocar informações. E apenas assistir a aula irá garantir esta condição? Talvez em relação a algumas informações sim, mas não em relação a todas.
A grande questão é que, em tese, salvo melhor juízo e sem a pretensão do monopólio da verdade absoluta – até por amor à ciência que rejeita verdades universais, absolutas e eternas, entendo que, definitivamente, não seria possível contar com a suficiente disponibilidade intelectual do conjunto de informações e conhecimentos apenas assistindo aulas! Ou seja, considero que apenas as aulas não vão garantir a necessária evocação das informações exigidas pelo examinador. E porque tenho esta compreensão?
A memória consiste numa função cognitiva complexa, influenciada por diversos fatores, de natureza neurofisológicos, emocionais, comportamentais e cognitivos. O momento em que se teve o contato com determinada informação, a forma como o professor a colocou e mesmo as condições fisiológicas do candidato naquele momento (por exemplo o estado de alerta e o sono) podem influenciar.
Portanto, assistir as aulas tende a não ser suficiente, inclusive ante a necessidade de reiteração de contato com o objeto de conhecimento trabalhado na sala de aula. Há uma unanimidade na neurociência e demais campos do conhecimento que trabalham com a memória, no sentido da compreensão de que o cérebro funciona com uma lógica de que o que é tido por relevante é mantido e o irrelevante é descartado. E aquilo que é visto de forma reiterada passa a ser tido relevante.
Segundo matéria publicada recentemente na Revista Mente e Cérebro, “…quando lembramos algo, determinadas vias neurais serão reativadas. Quanto mais vezes isso acontece, mais importante o cérebro considera a recordação e é mais provável que ela seja convertida numa memória de longo prazo, com a formação de conexões permanentes entre os neurônios. Essas conexões são reforçadas cada vez que a informação é retomada, facilitando sua recuperação.” (Marshall, Jéssica. “Esquecer para lembrar”, no. 27, 2011, p. 48).
Inclusive, sobre o tema, vale sugerir a leitura lembrar o texto publicado aqui no Blog sobre Memória Associativa e Preparação para Concursos (clique aqui para ler).
Além da importância da reiteração do contato, voltada a estimular a memória enquanto capacidade de evocação da informação, também é importante que o objeto de conhecimento com o qual se teve contato na aula seja trabalhado por meio de outros processos cognitivos, em momentos distintos.
Segundo o modelo de aprendizagem proposto pelo neuropsicopedagogo Victor da Fonseca, o referido processo tem como etapas o input (contato com a informação), cognição (compreensão da informação), output (exteriorização da informação) e retroalimentação, a qual envolve a reiteração de contato (“Cognição, neuropsicologia e aprendizagem”. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 154). Adotando abordagem semelhante, para Reuven Feustein, romeno com atuação em Israel e uma das maiores autoridades atualmente no tema da aprendizagem, autor da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural, o processo de aprender conta com uma fase de entrada, elaboração e saída (Souza, Ana Maria, Depresbiteris, Lea e Machado, Osny Telles. “A mediação como princípio educacional. Senac, p. 74).
Estas construções podem nos levar à idéia de que, por diversos motivos, como por exemplo a dinâmica da aula, a fase de elaboração ou cognição no referido contexto de aprendizagem pode contar com algumas limitações em determinados momentos e quanto a determinados assuntos. E esta compreensão exigirá a adoção de outros processos cognitivos em outros momentos.
Conforme sustento no livro que escrevi sobre o tema da preparação para concursos públicos (“Como se preparar para concursos com alto rendimento”, ed Método), o planejamento de estudos deve ser estruturado em duas etapas, sendo uma voltada ao que denomino de apropriação cognitiva primária e outra correspondente à apropriação secundária. A primeira envolve o contato inicial com o objeto de conhecimento a ser intelectualmente apropriado, ao passo que a segunda é voltada à manutenção, reiteração e aperfeiçoamento deste mesmo objeto cognitivo.
As aulas consistem em modalidade de estudo que podem ser adotadas em qualquer das duas etapas. Mas o fato é que considero relevante a reiteração do contato com a informação, bem como a adoção de distintos processos cognitivos.
Outro aspecto importante consiste na preocupação com o estilo de aprendizagem de cada candidato, tema abordado no texto Preparação para Concurso e Estilos de Aprendizagem (clique aqui para ler). Isto é, as aulas não terão o mesmo efeito para todos os alunos, considerando a pluralidade de estilos, o que decorre de uma enorme multiplicidade de fatores, desde culturais aos orgânicos e neurofisiológicos.
Portanto, apesar da relevância e do papel que as aulas podem exercer ao longo da preparação para concursos e exames, em regra, é preciso agregar outros esforços em termos de estudos. A preocupação fundamental é que você não se iluda, imaginando que ao se matricular em um curso preparatório e apenas assistindo as aulas terá sua aprovação garantida. E assim, procure se organizar, de modo a otimizar seu tempo e viabilizar condições de adotar outras formas de estudo.











11 comentários até agora. Deixe o seu.
Caro Dr Rogerio Neiva,
Eu já achava que as aulas tinham um papel apenas complementar.
Mas depois deste texto passei a ter certeza.
Obrigado por mais esta colaboração.
A sua abordagem técnica e anti-auto-ajuda é muito importante para nos orientar.
Tenha a certeza de que breve estarei aqui dando notícias de que figuro no rol dos aprovados.
Att,
AC
Prof Neiva,
Valeu por mais este texto!
Muito legal a provocação à reflexão!
Bjs!!!
Pessoal, obrigado pelos incentivadores feedbacks!
Antonio, vou cobrar a promessa firmada!
Abcs!!!!
Professor,
Concordo plenamente com o seu texto.
Na minha preparação para a OAB foi essencial minha rotina “britânica” na biblioteca…Agora me preparando para concursos também sinto que estudando um tempo sozinha há uma fixação maior do conteúdo mas confesso que ainda sou viciada nas aulas do Cursos Preparatórios.
Obrigada pela força!
Boa, Fabiana!
Sou testemunha presencial do seu empenho e dos êxitos conquistados até aqui!
Sucesso!
Abcs!
À Equipe Tuctor,
No plano do imediato quero apenas agradecer a oportunidade do aprendizado que vivencio.
Assim como os antecedentes é mais que um excelente texto de orientação, cientificamente embasado. É, sobretudo, incentivo que guia o estudante no caminho da meta cujo destino, para ser alcançado, mais que apenas caminhar, exige caminhar em trilha de horizontes e sucesso promissores.
No mediato tenho no meu íntimo a convicção de que n’outro contato anunciarei a aprovação.
Por esse feito, que não tardará, os agradecimentos pela contribuição vão desde já.
Caro Francisco,
Obrigado pelo retorno e incentivo!
Também vou cobrar sua promessa.
Quero ver aqui sua comunicação de que foi aprovado!
Abcs!
Professor,
Estou mais tranquila depois de ler o seu artigo. Fiquei 43 dias fazendo um intercâmbio e quando retornei já me matriculei num curso preparatório, porem estava angustia por saber que nao vai dar tempo de rever / aprender a matéria exigida para o exame de Ordem. De que adianta me iludir de que somente com as aulas eu teria minha aprovaçao? Espero conseguir estabelecer um plano de estudos e alcançar a minha aprovaçao. Obrigada!
Sim, acredito que seja possível obter a aprovação no exame de ordem apenas estudando em casa, sozinho. O que é totalmente diferente de estudar isolado, estudar isolado significa ter um estudo próprio, pessoal, intimo. O que pode ser perigoso em se tratando de exame da Ordem do advogados do Brasil.
Acredito que com materiais de estudo atualizados, bem como saber o perfil da prova, do que é mais cobrado e como será cobrado, e ainda com pelo menos algum material de apoio seja de um cursinho online, que tenha um roteiro de como estudar, e principalmente muitas horas de estudo, exercitando o que já aprendeu e também focalizando no que ainda tem de dificuldades. É bem possível sim
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