O objetivo do presente texto consiste na proposição de algumas ponderações sobre o processo de tomada de decisão na realização de provas de concursos públicos. Trata-se de um ensaio e um ponta-pé inicial do trabalho de pesquisa e reflexão sobre o tema. E a intenção fundamental consiste no fornecimento de subsídios e informações que colaborem com a busca de resultados para os candidatos a concursos públicos.
Assim, uma primeira idéia fundamental consiste na compreensão de que, em tese, ao estarmos realizando uma prova, podemos nos deparar com três situações:
- temos o domínio pleno, em termos de disponibilidade intelectual, da informação objeto da questão;
- não temos qualquer disponibilidade intelectual, ao menos em termos consciente, da informação objeto da questão;
- temos alguma disponibilidade, mas de maneira precária, o que envolve a angustiante situação, na qual sabemos que tivemos contato com a informação, mas não temos a certeza da resposta.
É bem verdade que, a depender do modelo de questão, podemos adotar caminhos e reações diferentes na realização da prova. Vale lembrar que teoricamente existem questões com perfil conteudista e outras com perfil operatório. Neste sentido, sugiro a leitura do texto “Como fazer provas Objetivas”.
Mas o fato é que na primeira situação, na qual contamos com o domínio da informação solicitada, significa que tivemos contato com esta (informação), por meio de algum processo cognitivo, isto é, estudamos, sendo que tal estudo nos permitiu a referida disponibilidade plena e segura do conhecimento no momento da prova. Na segunda situação, na qual não temos qualquer disponibilidade, geralmente é porque não estudamos. Também podemos ter estudado e, dada a precariedade do estudo, não temos qualquer lembrança.
Já na terceira situação, em tese, passamos por algum processo cognitivo de apropriação intelectual, mas este não foi tão suficiente para que houvesse a disponibilidade plena. Mas temos alguma lembrança, ainda que não nos permita encontrar a resposta.
Existe um autor paradigmático nas ciências voltadas ao estudo da aprendizagem humana, chamado Lev Vygotsky, que sustenta a existência do que chama de nível de desenvolvimento potencial (NDP) e o nível de desenvolvimento real (NDR). O primeiro ocorre quando não temos qualquer domínio da informação, sendo que o segundo é quando a dominamos (a informação). Entre estes existe o que chama de zona de desenvolvimento proximal (ZDP).
Portanto, quando estamos na terceira situação na prova, em tese, estamos nesta zona de desenvolvimento proximal. Neste caso, seria muito bom se estivéssemos no nível de desenvolvimento real, o que nos garantiria a pontuação da questão. Mas não é o que estaria acontecendo.
E ao nos depararmos com esta terceira situação, é preciso compreendermos um conceito fundamental, recentemente descoberto pela neurociência. Trata-se da idéia de que tomamos uma decisão e firmamos uma posição alguns segundos antes de tomarmos consciência. Segundo matéria publicada pela revista Mente&Cérebro, “as decisões podem ser traduzidas em atividade cerebral até dez segundos antes de se tornarem conscientes. Ou seja: você já decidiu dez segundos antes de se dar conta de sua opção”. (Número 211, Ano XVII, pág 33).
Diante desta premissa, uma hipótese com a qual venho trabalhando é de que, ao analisarmos uma questão de uma prova de concurso público, principalmente nos casos em que não temos a total certeza e convicção da informação objeto (da questão), a primeira resposta sobre a qual tomamos consciência já havia sido encontrada 10 segundos antes desta tomada de consciência. Porém, cabe indagar: isto quer dizer que esta seria a resposta correta e não precisamos mais avaliar nada de maneira consciente?
Seguramente não. Ao menos no momento atual, até que venham estudos confirmando, considero precipitada tal conclusão.
Mas daí tenho dois alertas e ponderações.
O primeiro é que a leitura do enunciado pode não ter sido adequada, de modo que a primeira reposta encontrada inconscientemente estaria comprometida, pela forma equivocada da captação dos elementos necessários para a sua identificação. O segundo é que isto não dispensa uma avaliação crítica e consciente.
Inclusive, conforme sustentado no texto que escrevi sobre estratégia de realização de provas, ao longo da realização de outras questões podemos não apenas encontrar a resposta de questões anteriores, como também, por algum motivo no processo cognitivo, podemos conseguir recuperar a disponibilidade daquela informação que não estava disponível. Vale lembrar que há uma construção desenvolvida por um pesquisador inglês denominado Michael Anderson, envolvendo a tese das memórias enquanto correspondências, segundo a qual há uma lógica de associações nas informações armazenadas, de modo que o contato com um determinado conhecimento pode ajudar a recuperar outro relacionado.
Independente destas ponderações, se o enunciado foi lido de forma adequada e, ao longo da prova, numa avaliação crítica e consciente, não encontramos fundamentos para rejeitar aquela primeira resposta que assumimos, apesar de estarmos inseguros, esta mesma resposta merece consideração.
O ideal mesmo seria fazer uma prova na qual todas as questões contassem com informações plenamente disponíveis. Mas isto se trata de uma utopia com a qual não podemos contar. Daí é importante sabermos trabalhar situações nas quais tivemos contato com o conhecimento solicitado pelo examinado, mas não temos total segurança, domínio e certeza.
Em breve, com o avanço no trabalho de pesquisa e orientação, estarei retomando este assunto.
No momento, desejo que tenha uma boa prova e tome decisões adequadas.










