Preparação de Alto Rendimento x Candidato Microondas: repercussões na aprendizagem

Concursos Públicos Aprendizagem em PG

Tenho reiteradamente sustentado a idéia da preparação para concursos públicos de forma consistente e pautada na perspectiva de longo prazo. Esta noção, incompatível com o comportamento do candidato “microondas”, envolve uma das dimensões da idéia da preparação de alto rendimento.

Mas além de sustentar esta proposta no plano da estruturação do planejamento de estudos, tal postura tem repercussões de grande relevância também no plano da aprendizagem. Este tema consiste no objeto do presente texto. Ou seja, a intenção é responder à seguinte pergunta: porque a preparação consistente e de longo prazo tem repercussões no plano da aprendizagem?

Primeiramente, vale registrar que o conceito de aprendizagem é bastante complexo e conta com várias construções, teorias e paradigmas para a sua explicação. Isto é, apesar de muita gente falar sobre aprendizagem, a partir de elementos puramente empíricos, intuitivos e sem fundamento, existem várias modalidades de conceitos para a compreensão do presente espetacular fenômeno humano. Mas considerando o objetivo aqui estabelecido, vamos trabalhar com as abordagens que têm como foco o aspecto cognitivo, o que conta com grande importância considerando o objetivo de busca da aprovação no concurso público.

Neste sentido, uma primeira idéia fundamental a considerada, inclusive já trabalhada em outro texto, é a seguinte: para o candidato que adota e preparação de longo prazo e alto rendimento, a aprendizagem não avança em progressão aritmética (PA), mas em progressão geométrica (PG). Como assim?

Um primeiro conceito importante consiste na noção de aprendizagem segundo aquele que é considerado um dos pais dos estudos voltados à compreensão do presente fenômeno, ou seja, Jean Piaget. Para o presente autor, a aprendizagem ocorre por meio de um processo de assimilação e acomodação. Na assimilação o aprendente checa o conhecimento novo com o pré-existente, ao passo que na acomodação compreende as diferenças, passando a dominar o novo, e parte para uma terceira fase de equilíbrio, com a apropriação da nova informação.

Assim, se o candidato a concursos públicos, no contexto de seu processo de aprendizagem,  busca se apropriar de uma nova informação integrante do seu plano de estudos, mas não conta com o conhecimento anterior necessário, não fará adequadamente a assimilação. E naturalmente que a acomodação também ficará comprometida.

Outro conceito importante, que também demonstra o papel da preparação para o concurso pautada na perspectiva de longo prazo, consiste nas construções desenvolvidas por David Ausubel, professor da Universidade de Columbia, médico-psiquiatra e psicólogo educacional. Segundo Ausubel, que trabalha com a idéia da aprendizagem de significados, aprendemos por meio de ancoragens. Ou seja, para aprendermos uma informação nova, precisamos contar com uma âncora estabelecida a partir de uma informação anterior.

E dessa maneira, quanto mais o candidato ao concurso público avança no seu plano de estudos, adotando a postura do alto rendimento, pautada na idéia da preparação consistente e de longo prazo, incompatível com o comportamento do candidato microondas, mais âncoras são criadas, mais amplia o seu universo de ancoragens.

Vou dar uma exemplo prático, que vivenciei recentemente em sala de aula.

Estava ministrando uma aula de Direito do Trabalho, abordando o tema da duração semanal do trabalho, e explicava a regra prevista no art. 7º, § 2º, da Lei 605/49, afirmando para alunos que “para os empregados mensalistas ou quinzenalistas, que recebem por duração, considera-se embutido no salário o valor do repouso semanal remunerado”. Percebi, como é comum, que muitos não tinham entendido a colocação. Mas ninguém se manifestou. Simulei que iria passar para o assunto seguinte, dando a matéria como dada, e observava muitos alunos anotando em seus cadernos ou netboooks, sem qualquer desconforto com o fato de que eu passava para matéria seguinte.

Tinha consciência de que muitos não tinham compreendido a colocação que fiz, principalmente por ter inserido na afirmação apresentada conceitos ainda não explicados, os quais faziam parte do assunto a ser abordado na aula seguinte. Daí fiz a velha provocação: “quem entendeu o que acabei de dizer e pode explicar para a turma?” Obviamente que ninguém se manifestou!

Para entender aquela colocação acerca do pagamento do repouso semanal remunerado era preciso contar com duas “âncoras” anteriores. Estas correspondiam aos seguintes elementos conceituais, componentes da estrutura da afirmação: (1) conceito de empregados mensalistas e quinzenalistas; (2) critério de remuneração por duração. Assim, parei, como se estivesse abrindo parênteses, para explicar estes conceitos e, com isto, a informação foi compreendida.

Ou seja, a assimilação, assim entendida na visão piagetiana da aprendizagem, foi realizada de forma inadequada. Faltavam as âncoras. E a matéria seguiria como dada….

Portanto, quanto mais o candidato estuda e consolida o objeto de conhecimento, mais amplia a sua base de ancoragens. Daí porque sustento que a preparação pautada na perspectiva de longo prazo e consistência proporciona a aprendizagem em PG.

Não é incomum que muitos candidatos estejam sempre buscando soluções quase milagrosas e fórmulas mágicas da aprovação, às quais trazem embutidas a idéia da viabilidade da preparação de curto prazo e sem esforço. Trata-se do famigerado “candidato microndas”. No contexto do último concurso público do MPU, o qual provocou grande mobilização, muitos alunos e candidatos me procuravam com a seguinte pergunta: “como faz para passar no concurso estudando em dois meses?”. Minha vontade era dizer: por favor, não me faça esta pergunta!

Portanto, na linha do que venho reiteradamente sustentando, procure estruturar um planejamento da sua preparação numa perspectiva consistente e de longo prazo, entendendo que tal atitude é importante inclusive para o processo de aprendizagem. Esta compreensão é fundamental até mesmo para que minimize as eventuais e naturais angústias com a busca de resultados imediatos, rejeitando a postura microondas.

Bons estudos, com alto rendimento e aprendizagem em progressão geométrica!

5 comentários até agora. Deixe o seu.

  1. Márcio Omena disse:15 dez 2010 às 1:40 pm · Responder

    Rogério,

    Este post está realmene espetacular. É a demonstração entre os que fazem a diferença e os que não fazem…

    Paz e bem

  2. Carla Cristina disse:15 dez 2010 às 10:02 pm · Responder

    Adorei o texto!Muito bom como todos que o Prof Neiva escreve! Sempre passando a mensagem de que não existe almoço grátis e não há ilusões para passar no concurso.
    Este trabalho com argumentos científicos e fora de autoajuda para concurseiros também é muito importante.
    Obrigado por mais esta!
    Bjs!

  3. Junior disse:20 dez 2010 às 9:52 am · Responder

    Muito bom!! É o que alguns outros chamam de processo de “agregação cíclica”.
    Quando você, de fato, aprende uma informação a partir de outras, vai-se formando um teia, um elo entre as informações que se deseja.

    Valeu, por mais essa dica!

  4. Diego disse:20 dez 2010 às 11:32 am · Responder

    Dr(o) Rogério, excelente post!

  5. Ernesto Neto disse:26 dez 2010 às 10:08 pm · Responder

    Parabéns pelo artigo!

Deixe um Cometário