O objetivo deste post consiste na abordagem de algumas ponderações importantes sobre técnicas de estudos e processos cognitivos, aplicados à preparação para concursos. A iniciativa de trabalhar o presente tema decorreu do email que recebi recentemente de um leitor do Blog e usuário do Tuctor, o qual perguntava a minha opinião sobre um serviço que fornecia material para memorização, envolvendo o conteúdo do concurso para o qual vem estudando.
Neste sentido, inicio pontuando que, como em relação a qualquer outra atitude ou decisão a ser tomada pelo candidato, é preciso ponderar sobre um trade-off (conflito) envolvendo uma lógica de custo-benefício. Ou seja, é preciso pensar e agir de forma estratégica e tática, de modo a maximizar a eficiência do esforço empreendido.
Conceitualmente, temos a aprendizagem mecânica e a aprendizagem de significados. A primeira não conta com a compreensão de sentido, ao passo que a segunda conta com a compreensão de sentido e significado do objeto de estudo.
Conforme tenho sustentado em palestras, normalmente sabemos a primeira estrofe do hino nacional, mas geralmente não sabemos contar a história que é retratada por meio desta mesma estrofe, salvo parando, a partir da reprodução mecânica, para refletir sobre o significado do conteúdo.
O fato é que geralmente, exceto no caso de uma repetição muito intensa, a aprendizagem mecânica se perde com mais facilidade que a de significados. Porém, esta última tem um preço maior.
Podemos tentar aprender um tema de Direito Constitucional, como por exemplo competências legislativas, decorando o art. 22 da Constituição Federal, para ter a disponibilidade da informação correspondente às matérias que se inserem na competência privativa da União. No caso, seria uma aprendizagem mecânica. Mas também podemos tentar entender o sentido e o porquê do Direito Civil e Penal não se inserirem na competência legislativa dos Estados e do Distrito Federal. Podemos tentar entender porque isto ocorre no Brasil, mas não ocorre nos EUA, a partir de uma compreensão do processo histórico de desenvolvimento do modelo federativo brasileiro, comparado com o modelo americano. E no caso, entenderemos que o movimento federativo aqui foi centrífugo (foge do centro), pois como éramos uma colônia de exploração, havia um poder central forte que criou os poderes locais, diferentemente dos EUA que, por ser uma colônia de povoamento, não contava com um poder central tão forte, tendo um movimento federativo de caráter centrípeto. E assim, entenderemos o sentido da grande quantidade de matérias que se inserem na competência legislativa privativa da União.
O primeiro modelo de aprendizagem no exemplo, pautado pelo “decoreba”, foi mecânico, ao passo que o segundo foi de significados. É natural que o primeiro demande um nível de tempo e esforço menor, mas também tenderia a proporcionar uma eficiência menor. A questão fundamental é qual o preço o candidato está disposto a pagar em troca de qual benefício, em termos de aprendizagem e disponibilidade da informação no momento da prova.
Existe uma construção muito importante, desenvolvida no âmbito das ciências cognitivas, voltada à explicação do processo de aprendizagem humana, envolvendo os conceitos de assimilação e acomodação. Na assimilação o aprendente compara a nova informação com a pré-existente, ou seja, a que havia sido apropriada anteriormente. Já na acomodação são compreendidas as diferenças entre a informação nova e a anterior, permitindo a efetiva construção do conhecimento. No entanto, existe o fenômeno da hipo-assimilação, o qual leva à hiper-acomodação. Tal fenômeno ocorre nas aprendizagens totalmente mecânicas e mnemônicas, sem a compreensão de sentido ou significado.
Pessoalmente, acho que em algumas circunstâncias a memorização sem a compreensão profunda de sentido pode ser útil. Principalmente se nos ajudar a fazer um ponto na prova.
Mas, efetivamente, só acredito em aprendizagem verdadeira que envolva a compreensão de sentido e significado. Isto é, considero que a garantia da aprovação vem apenas com este tipo de aprendizagem. Não acredito em fórmulas mágicas ou no “segredo do sucesso da aprovação em concursos”. Não acredito que a aprovação seja uma loteria que nos proporciona o prêmio de ter o nosso nome na lista de aprovados.
Acredito na preparação de forma estratégica, eficiente e racional, a qual assegure a maximização do esforço implementado e efetivamente proporcione resultados.
Sucesso ao leitores do Blog!!!












1 comentário até agora. Deixe o seu.
Parabéns por este artigo. Responde a alguns questionamentos que sempre tive.
Obrigado!