Erros e Pegadinhas dos Candidatos a Concursos Públicos e Exames

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Recentemente fui procurado por um veículo de comunicação para uma entrevista que tinha como tema “Os Erros mais comuns entre os concurseiros”. Por incompatibilidade de agenda, que estava gerando dificuldades para a realização da entrevista, me foi sugerido e solicitado que respondesse um questionário com perguntas sobre o tema da matéria pretendida.

Confesso que não sou muito simpático a abordagens que envolvem rotulações e universalizações por vezes inadequadas, contendo alguma dose de venda de ilusões, do tipo “os erros mais comuns”, “as armadilhas que levam ao fracasso”, “o segredo do sucesso”, “as regras de ouro”, “os passos para a vitória”.  Porém, ao analisar o questionário proposto, me senti inspirado pelas perguntas, de modo que, posteriormente, resolvi trabalhar um pouco mais nas resposta para publicar em forma de texto.

Saliento que boa parte das resposta e do conteúdo trabalhado envolve aspectos relacionados à realização de provas.

Vamos às perguntas e respostas…

Quais são os erros mais comuns dos concurseiros?
Tenho resistências a clichês e generalizações do tipo “erros comuns dos concurseiros”, “armadilhas dos concurseiros”, “pecados dos concurseiros” ou o “segredo dos concurseiros de sucesso”. Não obstante tal ressalva, considero que é possível compreender de forma razoavelmente universal que há dois grandes equívocos passíveis de serem cometidos. Um seria quanto ao processo de preparação para o concurso e outro em relação à realização de provas.

Quanto ao processo de preparação os principais equívocos, numa avaliação qualitativa, a partir do acompanhamento de uma boa base de candidatos, bem como da minha própria  experiência de candidato, destaco o seguinte: não estruturar um plano de estudos; estruturar um plano de estudos de forma inadequada; não estudar de forma correta, em termos de processos cognitivos adotados; não adotar estratégias de aprendizagem que tragam eficácia, quanto à apropriação e disponibilidade intelectual da informação estudada.

Este erro, naturalmente, irá repercutir no processo de realização das provas.

nas provas, temos que partir da premissa de que erro seria aquilo que acontece quando o candidato tem a disponibilidade da informação objeto da questão e ainda assim não acerta a questão. Isto é, se o candidato não tem disponível intelectualmente a informação objeto da questão e não acerta a questão, não seria um erro quanto à realização da prova.

Muitos erros nas provas geralmente ocorrem quando o candidato não identifica todos os elementos que compõe a questão, inclusive a própria redação da questão, por exemplo ignorando a presença de um “não” ou marcando a alternativa correta, quando o examinador solicita a incorreta.

Também, infelizmente, não é incomum a ocorrência de erros na transcrição da resposta ao gabarito, algo inaceitável, mas que eventualmente ocorre e pode ser determinante para comprometimento da aprovação.

Ainda com base numa análise qualitativa, considero que um dos grandes fatores que determinam o referido erro envolvem a inadequada gestão do tempo. Algumas provas de concursos para a Magistratura (Federal, Trabalho e Estadual), por exemplo, vem contando com cerca de 500 itens e de quatro a cinco horas para a resolução. Sendo com combinação, o cenário se torna ainda mais difícil.

Mas nestes casos, o candidato pode ter em média menos de 1 minuto por questão.

Assim, ao pegar a prova, o candidato precisa ter uma idéia do tempo médio que dispõe para cada questão e tentar gerenciar o tempo que falta, considerando a quantidade de questões restantes.

Quais as “pegadinhas” que mais atrapalham?
A solicitação de respostas incorretas podemos classificar como uma “pegadinha”, pois geralmente, de forma involuntária, tendemos a buscar a resposta ou afirmativa correta.

Outra situação envolve a cobrança de exceções em afirmações genéricas.

É muito batida a idéia de que toda vez que se adota generalizações, com a adoção de expressões como “sempre”,  “nunca” e outras congêneres, trata-se de uma afirmação incorreta, pois chavão diz o que toda regra tem exceção. Porém, não se iludam! Os examinadores sabem disto.

Assim, acredito que acabam valorizando generalizações em situações que, de fato,  permitem a generalização. Digo isto inclusive baseado no fato de que já fiz parte do corpo de examinadores de uma respeitável e grande instituição que organiza concursos em todo o país.

E daí, o candidato que vai no chavão de que toda afirmativa genérica é falsa, acaba caindo na armadilha.

Outro aspecto relevante são as construções sedutoras. Estas sim são perigosas!

É preciso desconfiar de construções sedutoras, as quais podem aparecer principalmente na justificativa da afirmação.

Por exemplo, no Direito do Trabalho, matéria que ministro na área jurídica, considero uma afirmação sedutora dizer que se um empregado fica recebendo horas extras durante mais de 10 anos tem direito à incorporação, com base princípio da estabilidade econômica, vez que teria estabelecido um novo padrão econômico-social-familiar, com base naquelas vantagens remuneratórias. A colocação é sedutora e a justificativa é correta. Porém, a afirmativa está errada. No caso, a justificativa, que está correta e faz sentido, consiste na tese da Súmula 372 do TST, ao passo que a afirmação, que está errada e compromete a validade da questão, envolve a tese da Súmula 291 do TST.Ou seja, a questão é sedutora, o que levaria o candidato a considerá-la como correta.

Existe alguma maneira de evitar as pegadinhas?
Além do que disse anteriormente, sugiro que o candidato, quando tem dúvida, siga adiante, pois pode ter contato com uma informação que o ajude acionar o padrão de conexão neural correspondente à informação que não está disponível. Vale lembrar que ter memorizada e disponível determinada informação significa que houve a formação de determinados padrões de conexão neural, ou seja, interação e atuação de neurônios e neurotransmissores em determinadas regiões do cérebro.

Uma atitude que pode ajudar é tentar parar por alguns segundos, respirar pausadamente e pensar (evocar) informações e dados relacionados à informação que não se consegue evocar. Considerando a referida dinâmica cognitiva da memória, bem como a lógica associativa, ao pensar em informações relacionadas ou próximas daquela que estamos buscando, tendemos a colaborar com a reativação do padrão de conexão neural correspondente a esta informação que se pretende evocar. E uma hora sai, mas é preciso ter calma.

Mas neste sentido, também sugiro a leitura do texto Preparação para Concursos e Memória Associativa (clique aqui para ler).

O estado psicológico do candidato pode influenciar nisso?
Sem dúvida e por diversos motivos. A aprendizagem tem sua dimensão emocional. Isto não é autoajuda enlatada e intuitiva para concursos, é ciência. Digo isto inclusive como psicopedagogo, com formação acadêmica na área. O estado emocional repercute na cognição. E há inúmeros fundamentos e pesquisas que comprovam esta compreensão.

Quais dicas o senhor daria aos concurseiros para o dia que antecede a prova?

Primeiramente é preciso o cuidado com as condições fisiológicas e emocionais para o dia da prova.

Por exemplo, se o candidato vai para a balada e se embriaga, está comprometendo, em termos neurofisiológicos, suas capacidades cognitivas, em função da falta de sono e do álcool.

Se é submetido a situações conflituosas, como por exemplo uma assembléia de condomínio na qual está em pauta um tema polêmico e controvertido, sujeito a debates acalorados, ou uma reunião de família voltada à solução de um conflito familiar, em termos emocionais, poderá estar  criando dificuldades e se expondo a situações vulneráveis.

Neste sentido, acho que aí a idéia da concentração, adotada no esporte de alto rendimento, principalmente em modalidades coletivas como o futebol, é bastante válida. Ou seja, é importante que o candidato faça a sua concentração.

Do ponto de vista dos estudos, sugiro que procure revisar as informações de natureza mais arbitrárias, inclusive para trabalhar com a memória de curto prazo. Vale esclarecer que existem informações de caráter mais lógico-conceitual, na qual é possível se compreender o sentido, bem como de caráter arbitrário, na qual há dificuldades para compreensão de sentido, exatamente pelo caráter arbitrário. Os prazos processuais e quoruns do processo legislativo são exemplos de informações arbitrárias.

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