É preciso ter uma inteligência acima da média para passar em concursos públicos ou exames? Quantas pessoas não se pegam com pensamentos e devaneios do tipo: “mas fulano é muito inteligente mesmo, ele passou em vários concursos difíceis e bem colocado!”. Ou seja, muitas vezes e de forma não deliberada e espontânea, associamos a inteligência à aprovação.
E por conseguinte, estabelecemos que a inteligência, enquanto um dom genético-natural-biológico de alguns privilegiados pela natureza, trata-se de condição que leva à aprovação. Por outro lado, também por vezes, convencionamos que não somos detentores do referido dom, e assim, chegamos à conclusão, ainda que não assumida ou inconsciente, de que não podemos passar. Mas aí reside uma dupla armadilha, a qual pode gerar algum comodismo e conformismo, bem como cria um falso pensamento de inviabilidade da aprovação.
O objetivo do presente texto é apresentar provocações à reflexão, no sentido da desconstrução desta idéia, de modo a evitar que se caia na referida armadilha!
E para tanto, começo com uma primeira provocação, com toda a tranqüilidade de quem passou pelo referido processo de preparação até a aprovação. Ou seja, vivi intensamente o papel de candidato, passando pela experiência relatada. Por vezes tive os mencionados pensamentos de associação da inteligência à aprovação, entendendo que não teria a titularidade do referido dom bio-cognitivo outorgado pela natureza.
Mas a tranqüilidade na abordagem do presente tema atualmente não decorre apenas do fato de que logrei êxito no concurso público que sempre tive como objetivo principal, isto é, a Magistratura do Trabalho, tendo também passado em vários outros concursos. O outro motivo que me deixa à vontade consiste no intenso trabalho de estudos e pesquisas sobre o tema da aprendizagem humana que venho desenvolvendo academicamente, numa perspectiva aplicada à preparação para concursos e exames.
Muitas impropriedades na reflexão do tema começam com alguma imprecisão conceitual sobre a inteligência, o que se trata de algo que conta com inúmeras abordagens e paradigmas, trabalhados há séculos. Desde a antiguidade existem concepções estabelecidas sobre a inteligência, nem sempre sendo corretas, estando também o assunto impregnado no senso comum.
E para lhe despertar à reflexão, começo fazendo a seguinte provocação: quem é mais inteligente, o ex-Presidente FHC ou o ex-Presidente Lula? Esta pergunta, passível de despertar paixões, foi intencionalmente colocada para contribuir com o objetivo do texto, no sentido da desconstrução de concepções pré-estabelecidas.
Responda à pergunta! Para você, o mais inteligente é FHC ou Lula?
FHC conta com inúmeros títulos acadêmicos, sendo respeitado em vários cantos do mundo por seu conhecimento. Os seus defensores vão dizer que foi o pai do Plano Real, sustentando aí um traço de sua inteligência. Lula, que não tem nem mesmo um título de graduação, é o mais carismático Presidente da nossa história, superando, segundo muitos, Getúlio Vargas. Também é um dos maiores líderes mundiais da atualidade, tratando-se de um fenômeno de quase-unanimidade mundialmente.
Qual dos dois é o mais inteligente mesmo?
Uma das primeiras tentativas de mensurar a inteligência ocorreu por volta de 1890, com a iniciativa de um primo de Charles Darwin, chamado Francis Galton. Em 1955, horas depois da morte de Albert Einstein, tido por símbolo da inteligência humana, seu cérebro já estava cortado em 240 fatias. Mais contemporaneamente, Howard Garner promoveu uma pequena revolução no tema, propondo o conceito das múltiplas inteligências, as quais correspondem à lingüística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-sinestésica, pessoal, naturalista e existencial.
Existem diversos estudos e pesquisadores na atualidade trabalhando intensamente sobre o tema. Argumentos construídos para refutar a credibilidade dos testes voltados à mensuração do quociente de inteligência não faltam.
Inclusive, neste sentido, recentemente foi apresentada uma tese por um professor da Universidade de Toronto, pesquisador na área da psicologia cognitiva, chamado Keith Stanovich, no sentido da distinção entre a falta inteligência e o que chama de disracionalidade. Ou seja, ser inteligente não significa ser racional. Segundo o autor, os testes de QI não medem a disracionalidade, a qual é determinada pela forma de solução de problemas e pelo conteúdo intelectualmente apropriado. Assim, é normal que pessoas inteligentes segundo os testes de QI, não sejam racionais, seja pela forma como desenvolvem o raciocínio, seja pela bagagem cultural e conceitual que carregam (“O que os testes de QI não revelam”. Mente&Cérebro, no. 216, Ano XVIII, págs. 42/43). Segundo o autor, os “gênios” também fazem besteiras e erram, sendo que exemplos públicos e notórios não faltam.
Não tenho dúvida de que esta tese consiste num argumento muito importante para desconstruir a idéia de que passar em concurso é para os iluminados e premiados por sua carga bio-neuro-genética-cognitiva. Ou seja, o candidato deve ser predominantemente inteligente ou racional?
Também existem estudos indicativos de que traços da inteligência decorrem do tamanho da massa cinzenta existente no cérebro e da capacidade de baixo consumo enérgico quando da realização de determinadas operações mentais. Mas aí há duas boas notícias. A primeira é que o tamanho da massa cinzenta se altera. A segunda é que o treino leva à redução do consumo de energia. (idem, pag. 41)
Estas constatações, no plano neurobiológico, nos remetem ao conceito de plasticidade cerebral. Conforme sustentam muitos estudiosos do funcionamento do cérebro humano, a função faz órgão! Assim, quanto mais nos mantemos nos estudos, mais avançam nossas capacidades intelectuais. Simples assim, sem precisar de milagres ou fórmulas mágicas!
Tal compreensão, inclusive numa perspectiva aplicada à preparação para concursos, pode ser adotada juntamente com as construções de Reuven Fuerstesin, uma das grandes autoridades contemporâneas no tema da aprendizagem e autor da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural. Conforme a lógica da referida teoria, “…a crença na inteligência como algo fixo, na potencialidade dos estímulos externos e na ênfase da emoção começou a encontrar alguns opoentes como Piaget, para quem a inteligência estaria ligada à construção ativa do pensamento a respeito do mundo, e Feurstein, cuja teoria se baseia na crença de que a inteligência é dinâmica e modificável, construída a partir dos múltiplos fatores gerais que podem ser relacionados a todos os comportamentos cognitivos.” (Souza, Ana Maria, Depresbiteris, Lea e Machado, Osny Telles. “A mediação como princípio educacional”.São Paulo: Senac, pág. 31).
As colocações até aqui apresentadas nos levam ao reconhecimento de duas constatações de grande importância. A primeira é que a prova do concurso público não é um teste de QI, estando mais para um teste de racionalidade. A segunda é que a inteligência é dinâmica.
Tais premissas, por sua vez, nos levam à conclusão de que você não tem o direito de achar que a aprovação é monopólio dos detentores de uma carga neuro-bio-genética privilegiada!
O concurso público está mais para um processo de intensa mobilização cognitiva, do que um mero teste de QI. Vale lembrar que, conforme descrito e explicado no livro que escrevi sobre o tema da metapreparação para concursos públicos, temos funções cognitivas primárias, que correspondem à atenção, memória e percepção, e funções cognitivas secundárias, correspondentes à aprendizagem e linguagem (Como se Preparar para Concursos com Alto rendimento, Ed. Método, pág. 132, apud PANTANO, Telma. Neurociência aplicada à aprendizagem. São Paulo: Pulso, 2009, pág 23).
Neste sentido, conforme sustentado no texto que escrevi para refutar a idéia do Super Homem Cognitivo, tendo como pano de fundo o edital do MPF (Procurador da República), o concurso público, indo muito além de um mero teste de inteligência, exigirá do candidato a realização de várias atividades intelectuais, como a capacidade de resolução de problemas com prévia compreensão e identificação da suas variáveis, mobilização da memória, identificação de conceitos, desenvolvimento de raciocínio e rotas cognitivas, concentração, enquanto capacidade de seleção de estímulos e informações, elaboração de respostas e busca de soluções criativas, dentre outras congêneres. (clique aqui para ler O Super Homem dos Concursos)
Isto sem falar, ao longo do processo de preparação, na necessidade de planificação dos estudos, bem como de condições emocionais para a manutenção na trajetória de busca da aprovação.
Ainda nesta perspectiva crítica, se é bem verdade de que o concurso não é para iluminados detentores de elevados quocientes de inteligência, não é menos verdade que não é preciso que o candidato busque métodos e soluções mágicas e milagrosas, para se transformar numa espécie de mutante da cognição. Atualmente existe um verdadeiro mercado de venda de soluções milagrosas, que dizem aumentar a velocidade e a eficácia de funções cognitivas. Quando as vejo lembro do personagem Professor Xavier (do “X-Men”), de modo que considero se enquadrar bem em roteiros de ficção científica. Mas não à realidade dos concursos e exames. Inclusive em função de várias limitações de ordem biológica. Mas não podemos descartar a possível pequena eficácia decorrente do efeito placebo.
Ou seja, a aprovação no concurso público não é monopólio de uma elite privilegiada por capacidades neuro-bio-cognitivas, geneticamente recebidas da natureza. Mas também não é preciso se tornar um mutante cognitivo para conquistar a aprovação.
Portanto, diante de todas as considerações, como conclusão, proponho à reflexão e atitude as seguintes idéias:
- a aprovação no concurso público não é restrita a candidatos que contem com capacidades e estruturas neurobiológicas tidas por privilegiadas, até mesmo pelo princípio da isonomia no seu sentido jurídico;
- procure se manter e avançar nos estudos, inclusive trabalhando com a lógica do foco no processo, no sentido de contribuir com a lógica da plasticidade (clique aqui para ler Preparação para Concursos e Foco no Processo);
- procure se submeter à realização de provas ou mesmo exercícios, considerando a tese de que o treino tende a reduzir o consumo de energia cerebral. Mas cuidado, pois os exercícios devem ser tidos como um processo secundário-complementar (clique aqui para ler Papel dos Exercícios nos Estudos);
- se convença de que você não tem o direito de dizer que não conta com condições cognitivas de conquistar a aprovação.
Seja mais do que inteligente, seja racional!
PS: CONFORME SE CONSTATA AO LONGO DO TEXTO, O TÍTULO CONSISTE NUMA PROVOCAÇÃO À REFLEXÃO SOBRE A IDEIA DE QUE A APROVAÇÃO É MONOPÓLIO DOS TITULARES DE INTELIGÊNCIA TIDA POR ELEVADA E DO PRÓPRIO CONCEITO DE INTELIGÊNCIA APLICADA AO PRESENTE CONTEXTO.











25 comentários até agora. Deixe o seu.
Muito bom, Professor! Descobri seu blog e agora sou leitora diária.
Obrigado pelo feedback Vanessa!
Espero que este e os demais textos ajudem! Seja bem vinda!
Excelente. Vez ou outra estou lendo algum artigo do blog. Sinto aquela certa dificuldade em começar. Mas aos poucos o blog tem me ajudado.
Obrigado.
Muito Bem Aurélio!
Foco no processo e avanços gradativos! Parabéns!
Caro Prof Neiva,
Muito bom o texto!
Como os demais, bastante fundamentado. Me ajudou a entender de forma diferente.
Não vou me preocupar com esta conversa de inteligência. Vou ser racional!
O sr sabe o que diz e tem fundamento.
Valeu!
Obrigado Ricardo!
Oferecer “remédio” para as pessoas não é fácil. Fácil é oferecer milagre, fórmulas mágicas e ilusões.
Mas meu comportamento ético não permite.
Abcs!
Oi Prof!
Adorei o post!
Não existem burros e nem inteligentes! Existem racionais e esfoçados que passam.
E com a sua ajuda isto fica ainda mais fácil…
Bjm!!!
Genial professor! Adorei o artigo e me incentivou ainda mais a estudar.
Abraços
Com esforço, determinação e disciplina…podemos alcançar todos os nossos objetivos…. isto está deveras comprovado…excelente texto mais uma vez…devidamente divulgado….
Boa Rodrigo!
Estamos juntos!
O trabalho do professor é fantástico. Há anos procurava algo parecido. Com a abordagem da metapreparação, é exposto muito mais informações e curiosidades dentre as quais busquei.
Abçs!
Obrigado Igor!
Como havia dito, é mais fácil oferecer soluções milagrosas do que remédio.
Mas vou oferecer sempre um remédio necessário, ainda que tentando neutralizar o gosto amargo.
Porém, ilusões jamais, até pelo meu compromisso com a ética e a verdade científica!
Abcs!
Parabéns, Prof. Rogério Neiva.
Quando estudei para o meu primeiro concurso nível médio, em 1999, passei com muito esforço. Porém, na ocasião, aconteceu um milagre: meu professor me ensinou cálculos matemáticos, pois eu não conseguia fazer um simples problema de MDC. Após seis meses de treinamento, eu resolvia exercícios em menor tempo que ele. Nós disputávamos um com o outro. TREINAMENTO É TUDO. Hoje sou formado em Direito, estou obtendo os primeiros resultados para analista de TRT e um dia serei Juiz do Trabalho também, se DEUS conntinuar me dando vida e saúde. O resto é comigo. Obrigado.
Boa Alessandro!
A prova viva da plasticidade, sem milagres, mas com esforço e respeito à lógica cognitiva…
Abcs!
Muito bom e temas aprofundaddos. Tem me servido tanto como estudante
como para as minhas aulas (professor de literatura).
Fantastico. Recomendo sempre.
Estimado Prof. Rogério,
Sem dúvida, o texto que mais gostei.
Perfeita a abordagem e um grande estímulo para quem se encontra na caminhada.
Parabéns pelo trabalho desenvolvido e pela ajuda oferecida aos candidatos.
Grande abraço
OLá Professor Rogerio eu quero parabenizar pois já assisti algumas palestra suas e confesso que o desejo de ser aprovada em concuso público tornou muito maior, principalmente do INSS, que é o do meus sonhos,estou ansiosa para usufruir de seu métado de estudo pois acredito que assim a minha aprovação pode chegar quem sabe já no proximo que deve sair ainda este ano rsrrrsr… mas estou confiante que serei Técnica do seguro social graças aos meus estudos e claro com seu métdo de estudo que espero poder contar c/ ele em breve.
Grta!
Caro Prof. Rogério Neiva.
Adquiri seu livro (Concursos Públicos Com Alto Rendimento)e estou aplicando os seus ensinamentos no plano de estudo.
Achei muito interessante a abordagem científica adotada.
Mas surgiu um problema: Considerando que trabalho das 08:00 hs às 18:00 hs e começo a estudar a partir das 20:00 hs, estou encontrando muitas dificuldades com relação ao tempo gasto na elaboração de resumos(que acredito não ser uma dificuldade somente minha). Além disso, o cansaço mental também é óbice ao estudo com qualidade.
Estou ciente do fórmula “custo-benefício”, mas, especificamente com relação ao tempo gasto com resumos, indago se há outro sistema atinge a mesma eficácia destes sem despender tanto tempo?
Com relação ao cansaço mental, peço que nos indique, se possível, alguma maneira de minimizá-lo.
Parabéns pelo site e pelo livro, definitivamente ferramentas obrigatórias na preparação para concursos públicos.
Olá Luciano!
Muito obrigado pelo incentivador retorno!
Quanto à elaboração de resumos, estou trabalhando em um texto com algumas sugestões sobre o tema. Acredito que apesar de alguns limites, o tempo pode, em tese ser otimizado.
Quanto ao desgaste, lhe garanto que há limitações de natureza inclusive neurobiológica. Até mesmo as proteínas mobilizadas na formação de memória contam com possibilidade de esgotamento.
Também em breve estarei publicando um texto sobre o tema.
No mais, desejo bons estudos e conte comigo.
Abcs!
Obrigado pelo texto. Me ajudou bastante. Eu também costomo sonhar demais e ser pouco racional.
Nossa… já estava me sentindo uma burra por não passar na OAB…. me deu muito ânimo esse blog.
Muito obrigada!
altamente motivador, gostei muito. valeu
pocha depois dessa dica fiquei mais animado,e tambem levantou a moral muito obrigado! agradeço por tudo!
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