Leitura e Estudo: existe diferença?

Por  •  12 abr 2011  •  Aprendizagem, Como se Preparar  •  15 Comentários
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Não é incomum ouvir de alunos e candidatos a concursos públicos dois tipos de colocações que guardam uma íntima relação: a primeira consiste na preocupação que surge quando após o estudo ocorre a sensação de não se lembrar do objeto de conhecimento estudado; a segunda envolve a angústia de que, adotando alguma técnica de estudo agregada à leitura, passa a demandar um tempo considerado significativo.

Naturalmente que tais colocações se relacionam ao estudo por meio de processos cognitivos como a leitura, ou seja, não estamos falando da apropriação intelectual de informações por meio de aulas, por exemplo. E daí, para avançar na problematização e provocação à reflexão, outra questão correlata consiste na possível distinção entre o estudo e a mera leitura. Ou seja, existe diferença entre ler e estudar?

A tentativa de resposta e apresentação de ponderações sobre a pergunta consiste no objetivo do presente texto.

Assim, primeiramente, é preciso compreender o que significa a leitura.

Temos diversas teorias, construções e mesmo paradigmas para explicar o processo de leitura.

Numa abordagem mais cognitivista, segundo o neuropsicopedagogo português Prof Vitor da Fonseca (com o qual inclusive tive a oportunidade de ter contato estando no Brasil no ano passadoclique aqui para ler), a leitura “implica em processar letras que têm categorizações fonológicas específicas para serem decodificadas e compreendidas. De um processo de captação visual, o cérebro tem em seguida de categorizar formas de letra com sons, por meio de processos auditivos complexos a fim de inferir significações cognitivas contidas em palavras que compõe um texto(Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 153).

Para a professora espanhola e psicóloga educacional Isabel Solé, em obra específica sobre estratégias de leitura, trabalhando com uma abordagem mais ampla, existem basicamente três modelos para a compreensão do processo de leitura, os quais correspondem ao ascendente (bottom up), descendente (top down) e interativo (Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 22).

No modelo ascendente o leitor decodifica cada parte do texto, ou seja, letras e palavras, de modo que a partir das partes passa a compreender o todo. Já no modelo descendente, as partes e a atividade de decodificação perdem relevância, havendo a preocupação exclusiva com a compreensão do todo. No terceiro modelo, ou seja, interativo, com a pretensão de ostentar caráter híbrido, há a preocupação com a compreensão do todo, sem perder a importância da decodificação, inclusive quanto aos aspectos léxicos, sintáticos e grafo-tônicos.

Na adoção do modelo descendente de forma pura, utilizado nas estratégias de leitura dinâmica – muitas vezes apresentadas e vendidas como fórmulas mágicas e milagrosas para passar em concursos, é fundamental o domínio de conceitos prévios. Ou seja, existem dificuldades para a compreensão do todo, de forma anti-ascendente, nas situações em que não se tem qualquer conceito prévio sobre aquele tema estudado.

Porém, no fundo, independente de concepções teóricas e paradigmáticas sobre a leitura, pensando na preparação para concursos públicos, é preciso considerar dois aspectos relevantes. O primeiro consiste no processo de apropriação do objeto de conhecimento por meio da leitura (aspecto processual). O segundo consiste na manutenção cognitiva deste mesmo objeto de conhecimento, o que se relaciona diretamente com a memória (manutenção da informação).

Não obstante os referidos aspectos apontados, não se pode ignorar um alerta de enorme importância: o objetivo da leitura sempre terá impacto determinante! Ainda segundo Isabel Solé, “…o leque de objetivos e finalidades que faz com que o leitor se situe perante um texto é amplo e variado: devanear, preencher um momento de lazer e desfrutar; procurar uma informação concreta; seguir uma pauta ou instruções para realizar uma atividade; informar-se sobre determinado fato; confirmar ou refutar conhecimento prévio; aplicar a informação obtida com a leitura do texto…” (idem, p. 22).

Assim, não apenas do ponto de vista psicológico, mas inclusive cognitivo e neurofisiológico, não podemos considerar que a leitura de um romance num contexto lúdico e de descanso, como por exemplo nas férias, tenha o mesmo sentido que a “leitura/estudo” de um manual de Direito Administrativo na biblioteca, no contexto da preparação para o concurso público.

Mas considerando os dois aspectos levantados (processo de apropriação do objeto de conhecimento e memória), quanto ao processo de apropriação, este pode contar com uma compreensão de sentido do objeto de conhecimento estudado mais ou menos avançada.

Isto se relaciona com os modelos de aprendizagem mecânica e de significados. Na primeira não há compreensão de sentido no objeto de conhecimento apropriado, ao passo que no segundo modelo há compreensão de sentido.

Não vou dizer o que acho que deva ser o mais correto, inclusive pelo fato de que nenhum candidato é igual ao outro, de modo que rejeito soluções universalizantes e generalizantes, bem como cada modelo gera um custo de esforço intelectual diferente do outro. Existem especialistas em preparação para concursos que, de forma totalmente empírica e intiuitiva, acabam por defender o modelo mecânico – ainda que sem saber o sentido paradigmático do que defendem. Não considero correto dizer que estejam errados, apenas defendo que você deve entender o sentido disto e avaliar se é eficiente.

Porém, o fato é que existem situações nas quais você poderá estar se apropriando mecanicamente das competências privativas da União, sem sequer saber qual o sentido, os motivos e a lógica da repartição de competências entre os entes da Federação. Pode ser que sequer saiba, em termos de compreensão, o que é federação, a origem desta construção e o que representa para a estruturação do Estado.

E daí, refletindo sobre a presente colocação, talvez você insista: mas qual seria o mais adequado? Continuo insisto na resposta: até por uma questão de ética intelectual, não posso universalizar, isto é, a resposta é sua!

Porém, arrisco sustentar, em termos de formulação hipotética e sem a pretensão de deter o monopólio da verdade, que é preciso considerar que há informações mais arbitrárias e outras informações mais lógicas. As primeiras não cotam com elementos que permitam a compreensão de sentido, ao passo que a segunda há. Por exemplo, o conceito de cláusula pétrea, enquanto limitações materiais ao poder constituinte derivado, consiste numa informação lógica. Já o prazo do recurso extraordinário consiste numa informação arbitrária. Daí considero que para informações lógicas o modelo da aprendizagem de significados seja relevante, ao passo que para informações arbitrárias o caminho seja o modelo mecânico.

O segundo aspecto relevante consiste na manutenção do objeto de conhecimento apropriado, o que se relaciona diretamente à memória. Cabe esclarecer que, conceitualmente e cientificamente, ainda que alguns empiristas e sem a devida fundamentação teórica sustentem o contrário, memória e aprendizagem não se confundem! Conforme publiquei no meu livro sobre preparação para concursos públicos, “temos funções cognitivas consideradas primárias e outras secundárias. As funções primárias, necessárias às secundárias, correspondem à sensação, percepção, atenção e memória. Já as secundárias, mais elaboradas e dependentes das primárias, consistem na linguagem e aprendizagem”. (Como se Preparar para Concursos com Alto rendimento, Ed. Método, pág , apud PANTANO, Telma. Neurociência aplicada à aprendizagem. São Paulo: Pulso, 2009, pág 23).

Contudo, não podemos ignorar que o objetivo da “leitura/estudo” também pode impactar também na manutenção e capacidade de evocação da informação apropriada. Vale lembrar que memória tem relação com a capacidade de evocação da informação apropriada.

Daí considero que, independente da estratégia de aprendizagem (mecânica ou de significados), existem duas variáveis que podem impactar na consolidação de memórias, inclusive enquanto memórias de logo prazo. Trata-se da reiteração do contato e da intensidade do processo cognitivo.

No caso da reiteração do contato, trata-se da repetição. E neste caso entra o papel das revisões. Sobre o tema, sugiro a leitura do texto sobre a Revisão Estratégica (clique aqui para ler).

Quanto à intensidade do processo cognitivo, podemos “ler” de várias formas. Eu, pessoalmente, tenho a convicção de que no meu caso, para uma consolidação consistente, preciso fazer um resumo. Preciso redigir. Inclusive para facilitar a reiteração do contato. Enquanto candidato fazia os dois, elaborava resumos e fazia revisões sobre estes resumos.

E mais, avançando na minha experiência de candidato, raramente adotava estratégias de aprendizagem mecânicas. Talvez, sem saber e sem ter a compreensão científica na época – afinal, me tornei um estudioso e pretenso acadêmico das ciências da aprendizagem após passar no concurso público almejado (para o cargo de Juiz do Trabalho), mas adotava estratégias de aprendizagem mecânica apenas para informações arbitrárias. Por exemplo, havia criado uma técnica mnemônica, construindo palavras (não reconhecida em termos vernacular propriamente enquanto palavra) com as iniciais das fontes de integração do Direito do Trabalho, previstas no art. 8º da CLT (JAEPUCJurisop, Analogia, Equidade, Princípios, Usos/Costumes e Direito Comparado), inclusive para distinguir da regra da Lei de Introdução ao Código Civil (ACOPAnalogia, COstumes e Princípios).

Mas diante do relato apresentado, você poderia indagar: fazer resumos não demanda muito tempo? Sem dúvida, apesar de que existem várias estratégias para fazer um resumo, sendo que eu havia construído a minha própria estratégia (a qual descrevo melhor no livro). Porém, na minha avaliação de custo-benefício, havia me convencido, e ainda sou convencido, da eficiência da realização dos resumos. Pode ser que para você não seja tão eficiente.

E mais, outro aspecto relevante consiste no estilo de aprendizagem. Sobre o tema, sugiro do texto sobre a Preparação para Concursos e os Estilos de Aprendizagem (clique aqui para ler).

Aliás, considero que candidatos portadores de distúrbios de aprendizagem como a dislexia, não terão muito sucesso com este caminho dos resumos.

Enfim, como tenho dito, existem custos e benéficos, os que serão diferentes para cada um, a depender de uma série de variáveis, de natureza objetiva ou subjetiva.

O fato é que a leitura pode ter diversos sentidos em termos de consistência do processo cognitivo e do impacto sobre a manutenção e capacidade de evocação da informação. Cabe a você avaliar o caminho que vai adotar, tendo consciência de como pretende aprender (mecanicamente ou com significado) e qual a intensidade do processo cognitivo irá imprimir.

15 comentários até agora. Deixe o seu.

  1. Valeska disse:12 abr 2011 às 2:19 pm · Responder

    O Sr mencionou sobre dislexia. Além de ter uma leve dislexia, me descobri com deficit de atenção…
    E o mais engraçado é que isso passou por tanto tempo despercebido porque eu sempre fui boa aluna (escola particular), passei em Universidade federal, passei num concurso nacional (Aeronáutica), então, ninguém, nem eu mesma; percebi que tinha dificuldades. É claro que, agora olhando de outra pespectiva, reconheço que os sinais sempre estiveram lá, mas nunca foram suficientes para chamar a atenção…
    Se o Sr tiver textos ou livros recomendados a respeito do assunto, ou ainda realizar um artigo, agradecerei.
    Valeska

    • Rogerio Neiva disse:12 abr 2011 às 4:04 pm · Responder

      Valeska, me mande um email (rogerio@tuctor.com). Estou com um projeto de pesquisa interdiscipliar na área de distúrbios de aprendizagem e preparação para concursos e outro trabalho supervisionado na área clínica, para atendimento de concurseiros com TDAH e Dislexia.

  2. Priscila Simões Maia disse:12 abr 2011 às 3:51 pm · Responder

    Concordo plenamente quanto aos resumos, além disso utilizo os mapas mentais, excelente ferramenta para revisão da matéria em curto espaço de tempo. Entendo que o perído dedicado ao estudo, seja de uma forma ou outra é válido para organização mental da informação.

    • Rogerio Neiva disse:12 abr 2011 às 4:06 pm · Responder

      Boa colocação Priscila!
      Neste sentido, aproveito para sugerir a leitura do texto sobre os Estilos de Aprendizagem. De fato, os resumos podem não ter a eficiência para todo mundo, sendo que o mesmo vale para os mapas mentais.
      Daí porque é importante levar em consideração como as estruturas e rotas cognitivas de cada concurseiro funciona.
      Abcs!

  3. Roberto disse:13 abr 2011 às 10:37 am · Responder

    Prezado Prof Neiva,
    Realmente seus textos são muito esclarecedores e fundamentados. Como já ouvi por aí e consta no texto linkado, é ciência aplicada aos estudos para concursos.
    As informações sobre a leitura e os estudos muito me ajudaram a entender o que estava fazendo e o que vou passar a fazer.
    Continue a nos ajudar e obrigado!
    Atenciosamente.

  4. @jucadonorte disse:14 abr 2011 às 7:52 pm · Responder

    Excelente artigo como sempre :o )

    Gosto da mnemônica para certificação do que já domino: Ex.: Requisitos do Ato: CoFiFoMoOb.

    Sucesso!

  5. Sérgio Gonzaga Pinto disse:15 abr 2011 às 10:44 am · Responder

    Até o mês passado, estava com esse problema… Lia e depois nem lembrava o assunto lido.
    Me veio a frustração após a leitura de mais de mil páginas…
    Contudo, seguindo orientações do Prof. Rogério Neiva, com o auxílio do sistema tuctor consegui resolver a questão.
    Achava que resumo iria demorar muito, mas, aumentei o tempo destinado ao resumo de cada unidade de estudo no tuctor e percebi que não aumentaria tanto tempo assim…
    Passado um mês, verifiquei que até mesmo a minha técnica de resumo melhorou. Está mais fácil resumir, inclusive, com maior produtividade.
    Estou fazendo um resumo meio esquematizado…
    Já consegui resumir quase mil páginas, inclusive ficou fácil a revisão…
    Acho que agora vai!!!
    Obrigado ao Prof. Rogério Neiva e equipe e que continuem este trabalho de orientação.
    Abraços
    Sérgio

  6. Francisco Fiuza disse:15 abr 2011 às 3:05 pm · Responder

    Para a parte de aprendizagem mecânica, gosto de usar a técnica de repetição espaçada – idealizada por Piotr Wozniak.
    Em resumo, são os conhecidos ‘Flash Cards’. É uma técnica muito difundida em países desenvolvidos (Eua, Alemanha etc) para a aprendizagem de conhecimentos arbitrários, como para o desenvolvimento do vocabulário, memorização de fórmulas etc. Eu uso intensamente essa técnica. Tenho em torno de 7.000 fichas. Só como exemplo, tem aproximadamente uns 2 anos que não leio nada sobre o Poder Judiciário, no entanto, sei de cabeça todas as competências constitucionais, originárias e recursais, do STF, STJ etc.

    No quesito resumo e mapas mentais, sou um pouco seletivo, de acordo com a necessidade. Sempre resumo em mapas mentais. Se o conhecimento for simples, um mapa simples é suficiente. Se o conhecimento for muito complexo, faço um mapa um pouco mais elaborado, dissertando sobre o tema. Se ainda assim tiver dificuldade, aí parto para desenhos, músicas, piadas.

  7. beatriz disse:1 jun 2011 às 4:28 pm · Responder

    hoo!!!seus textos são esclarecedores parabens bjum!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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    • marta disse:1 jun 2011 às 4:30 pm · Responder

      é verdade bibi dddddddddddddddddddddddd+++++++++++++++++++++++++bibi vc tem orkut?????ou msn??????????????

  8. Chris disse:11 mai 2012 às 9:56 pm · Responder

    Ola,adoro tudo o que o senhor escreve. Acho muito importante .
    Tbm tenho dislexia, e defict de atenção .tenho dificuldade de memorizar, nao consigo trabalhar com mapas mentais, mas consigo recordar através dos resumos, com bastantes detalhes , nada solto,pois nao consigo lembrar a que pertence.
    Infelizmente ainda nao consigo fazer resumo enxuto.
    Mas aos pouco chego lá.
    Obrigado por tudo

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