Muitas vezes ouço colocações de que “não basta se preocupar com o que estudar e nem com o tempo de estudo, mas sim com a qualidade do estudo”. No mesmo sentido, não é incomum ouvir colocações do tipo “o que importa não é a quantidade, mas a qualidade”. Considerando esta legítima e relevante preocupação, o objetivo do presente texto consiste no levantamento de ponderações acerca do tema, de modo a proporcionar reflexões. E com isto, a intenção é colaborar com o processo de preparação e busca da aprovação nos concursos públicos almejados.
Assim, primeiramente é preciso enfrentar e refletir sobre a seguinte pergunta: mas afinal, o que é qualidade de estudos? Inegavelmente, temos por trás desta pergunta a ser respondida uma percepção de eficácia, no sentido de que determinado objetivo estabelecido teria sido alcançado. Porém, a percepção de eficácia também exige o levantamento do seu sentido, o que nos leva novamente à identificação do significado da qualidade dos estudos.
Não temos parâmetros científicos e psicométricos universais para a mensuração da qualidade dos estudos. No entanto, a noção de qualidade deve guardar relação com o nível de eficácia da apropriação do objeto de conhecimento com o qual o candidato teve contato por meio de algum processo cognitivo, isto é, aquilo que estudou. E esta eficácia da apropriação intelectual da informação, por sua vez, está diretamente relacionada com a disponibilidade cognitiva. Daí chegamos á compreensão de que qualidade de estudos significa disponibilidade intelectual do que foi estudado.
Inclusive, a partir desta noção, venho sustentando que a preparação para concursos públicos conta com dois objetivos fundamentais, sendo um mediato e outro imediato. O objetivo mediato, correspondente ao fim maior, consiste na aprovação, ao passo que o objetivo imediato, enquanto meio de alcance do primeiro, consiste na apropriação intelectual do objeto de conhecimento estrategicamente eleito pelo candidato.
Portanto, no âmbito da preparação para concursos públicos, a qualidade dos estudos seria determinada pela disponibilidade, em termos intelectuais e cognitivos, daquilo que foi estudado.
Registro que há um autor paradigmático no âmbito das ciências voltadas ao estudo da aprendizagem humana, denominado Lev Vygostsky, que sustenta a idéia de que no processo de aprendizagem existe um nível de desenvolvimento potencial e um nível de desenvolvimento real. No primeiro o aprendente não conta com a disponibilidade e domínio do objeto de conhecimento, dependendo da ajuda de um mediador, ao passo que no segundo nível existe o domínio e a disponibilidade do objeto de conhecimento. Entre ambos haveria o que denomina de zona de desenvolvimento proximal.
Trago este conceito apenas para mostrar que a identificação do sentido da qualidade de estudos talvez seja mais complexa do que normalmente imaginamos. Se estamos na zona de desenvolvimento proximal significa dizer que não houve qualidade?
Por outro lado, existem estudos da neurociência indicando que a consolidação de memórias, principalmente de longo prazo, ocorre durante o sono. Ou seja, existem vozes nos referidos campos de conhecimento que sustentam que a aprendizagem se consolida durante o sono. Assim, seria possível sustentar que o estudo anterior a esta consolidação neurobiológica não teve qualidade? Me lembro que em certa ocasião, durante a minha trajetória de candidato, percebi que teria passado a dominar os institutos da intervenção de terceiros após ter sonhado com os referidos conceitos. Nos processos de aprendizado de línguas esta experiência é muito comum.
Portanto, uma idéia fundamental que sustento é de que, dentro da concepção da preparação consistente e de longo prazo, relacionada à noção da preparação de alto rendimento, o conceito de qualidade de estudos deve ser compreendido numa perspectiva mais ampla. Traduzindo, aquilo que hoje estudei e aparentemente não teve qualidade, amanhã pode ter um outro sentido no meu processo de preparação, inclusive de modo a colaborar com a consolidação de outros conceitos a serem estudados.
Aproveito para lembrar que a preparação de alto rendimento, tendo embutida a idéia de consistência e longo prazo, é incompatível com a preparação do candidato microondas. O candidato microondas é aquele que vive em busca da fórmula mágica e da pílula do sucesso que irá fazer com que seja aprovado de maneira rápida e sem esforço. Trata-se daquele candidato(a) que acredita nas soluções fáceis, pautadas em propostas sem qualquer cientificidade.
Outro aspecto relevante sobre a compreensão da qualidade dos estudos, partindo da premissa de que se relaciona com a disponibilidade intelectual e cognitiva do que foi estudado, trata-se da compreensão de que existem fatores endógenos e exógenos que podem contribuem para isto. Dentre os fatores endógenos, podemos destacar as condições físicas e intelectuais, bem como as condições emocionais. Se estamos cansados, em termos físicos e mentais, em tese, naturalmente haverá um comprometimento dos estudos, se compararmos com o que ocorreria em situações normais. No entanto, se formos assistir uma partida da final do campeonato brasileiro de futebol, estando jogando o time que torcemos, as condições emocionais e físicas para aquele processo de apropriação da informação serão suplantadas pelas condições emocionais.
Daí porque, também conforme venho sustentando, a gestão das condições emocionais é fundamental. Inclusive, no livro que publiquei recentemente pela Editora Método (Como se Preparar para Concursos com Alto Rendimento), há um capítulo dedicado a este tema.
Partindo para uma tentativa de conclusão, considero que a identificação do conceito de qualidade de estudos é algo complexo. O fato de ter realizado um exercício após o estudo e contar com acerto não significa, necessariamente, que o estudo tenha sido de qualidade. Noutro sentido, o fato de não ter tido êxito também não significa que o estudo não teve qualidade. Dessa forma, considero que a avaliação de tal condição deve ser considerada numa perspectiva ampla e não reducionaista.
Bons estudos!










