Você já teve contato, já usou ou já ouviu falar das drogas dos concurseiros?
Muito bem, ao que tudo indica, vem ganhando força a idéia do uso de drogas cognitivas no universo da preparação para concursos públicos. Trata-se de um recurso perigoso e ilusório.
Alguns candidatos têm recorrido a substâncias químicas com a intenção de otimizar o processo de estudos. Geralmente estas correspondem ao metilfenidato, mais conhecido como ritalina, e o modafinil. A intenção seria melhorar as funções cognitivas primárias, tais como a atenção e a concentração.
Antes de mais nada, vale lembrar que o referido recurso se trata de uma droga. Segundo o dicionário de Michaelis, droga seria a “designação comum a todas as substâncias ou ingredientes aplicados em tinturaria, química ou farmácia”.
Infelizmente, a postura de adoção indiscriminada do aludido recurso atinge não apenas o mundo da preparação para concursos públicos, mas também já vem, há algum tempo, afetando o universo da educação infantil. Não é incomum que profissionais da saúde ou da educação, diante de transtornos de aprendizagem por parte de crianças – principalmente o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), recomendem de imediato o uso da ritalina, sem a tentativa de outros meios ou estratégias de superação da mencionada dificuldade.
Mas diante deste cenário, dois aspectos fundamentais exigem consideração. O primeiro seriam os efeitos colaterais e problemas passíveis de ocorrência no futuro. O segundo seria a real eficiência do referido recurso.
Como sei que muitos dos candidatos não se preocupam com o futuro, estando tomados pelo imediatismo e às vezes pelo desespero de busca da aprovação, vou ignorar solenemente a primeira preocupação. Registro que considero positivo este “quase desespero”, pois se traduz em motivação e compromisso com o processo de preparação. No entanto, como tudo na vida, radicalismos e exageros sempre são indesejáveis. Inclusive pelo risco de que a referida intensidade de envolvimento ao longo da trajetória de estudos não se mantenha constante.
Assim, considerando a preocupação-alvo que elegi, saliento que tenho dúvidas sobre a eficiência do uso dos referidos medicamentos. Em tese, a intenção consiste na ampliação da concentração e atenção. Para compreensão da referida atitude, destaco que há um conceito de grande aplicação.
Trata-se da idéia da curva de aprendizagem. A referida construção foi desenvolvida pelo alemão Hermann Ebbinghaus e aperfeiçoada por Theodore Paul Wright. Tal conceito envolve a noção de que o processo de aprendizagem não é necessariamente linear. Ou seja, ao iniciarmos nossos estudos em determinado momento, haverá um ponto ótimo de aproveitamento, após o qual este contará com um comprometimento. A referida idéia se relaciona com um conceito da ciência econômica denominado função utilidade, conforme o qual em processos produtivos existem momentos e situações de otimização positiva ou negativa de resultados.
Ou seja, resumo do resumo: 10 horas seguidas de estudos não são o resultado aritmético de 1 hora vezes 10 de estudos. Assim, não é o fato de tomar um medicamento que permita permanecer 10 horas estudando que garantirá a eficiência de tal processo cognitivo e, principalmente, da apropriação intelectual da informação passível de solicitação no momento da prova. Não custa lembrar que o cérebro conta com uma estrutura bio-fisiológica complexa, não funcionando como uma máquina. Isto é, não é uma questão de trocar a pilha ou colocar uma bateria mais potente.
Recentemente, o periódico “Mente e Cérebro” publicou uma matéria noticiando que alguns cientistas estariam propondo a reflexão sobre a conveniência de adoção das mencionadas substâncias, enquanto meio de otimização cognitiva. No entanto, não deixou de fazer o devido e necessário alerta, ao colocar que “essas drogas devem ser cuidadosamente estudadas para esse fim, e devem ser avaliados seus riscos e benefícios” (Ano XVI, no. 193, pág 21).
Saliento que, apesar da percepção de alguns no sentido da eficiência da busca de drogas cognitivas, considero – em termos de formulação de hipótese, que se trata apenas e tão somente de uma ação de efeito placebo. Não há dúvida que temos a natural capacidade de reagir, inclusive em termos fisiológicos, diante da crença de que determinada substância provoca determinado efeito esperado. Pode ser que por trás da aparente e ilusória vantagem subsista a atuação do referido mecanismo.
Portanto, não tenho dúvida em afirmar que, ao invés da busca de ganhos facilitados e ilusórios, a otimização dos estudos deve ser viabilizada por estratégias e atitudes adequadas, principalmente em termos da estruturação do planejamento da preparação.
Recentemente, publiquei texto sobre o Princípio de Pareto e a Preparação para Concursos Públicos, apontando algumas idéias que podem ser implementadas no sentido da referida maximização e eficiência de esforços empreendidos. Além disto, não é preciso muito esforço intelectual para se convencer da importância do cultivo de hábitos saudáveis, em termos físicos e psicológicos, enquanto meio de gerar condições adequadas ao processo de estudo e aprendizagem.
Enfim, espero que você reflita sobre os alertas apontados e manifesto meus votos de que desempenhe uma preparação estratégica, eficiente, racional, de alto rendimento e, acima de tudo, saudável!!!











16 comentários até agora. Deixe o seu.
Li o artigo, obrigada pela mensagem final.
existem efeitos colaterais da droga que não foram mencionados.
Reconheço a importância do destaque para os efeitos colaterais. Porém, conforme colocado no corpo do texto, a finalidade era discutir a eficiência cognitiva do referido recurso no âmbito do processo de preparação. Apesar do necessário e relevante alerta para os efeitos colaterais, este não era propriamente o objeto da abordagem. Mas manifesto minhas congratulações com as preocupações e riscos externados.
Att,
Rogerio Neiva
Bom artigo!
Para os amigos concurseiros vai uma dica que é o floral rescue. Ajuda na concentração, eliminação de ansiedade.
o floral e um arranjo de plantas mas preciso lembrar coca maconha cicuta tambem sao plantas e nao e o fato de ser natural, vegetal que resultara em beneficio em que medida ou maleficio, portanto, nada existe de milagre das plantas ou dos laboratorios, sempre havera efeitos colaterais, experimente tomar um litro de agua com folhas de sena… a dor de barriga sera intensa e o banheiro ficara a sua disposicao o tempo todo ate eliminar …
eu to sabendo mesmo que tem gente fazendo isso, olhei a bula na internet, esse medicamento tem o mesmo efeito do rebite. faz super mal pra saúde…vai saber o que isso pode causar a longo prazo…
melhor demorar pra passar no concurso e ter saúde do que passar e morrer cedo…
Li o artigo, obrigada pela mensagem final.
Caro Prof. e Amigo Rogério,
Muito bacana sua matéria,você provou que o caminho mais rápido, não é o melhor caminho!!
Você utiliza alguma técnica para concentração e leitura? você pode sugerir alguma?
muito obrigado
Leonardo Frias
Caro Professor, vi em seu artigo que o Sr. é absolutamente contra a administração de medicamentos(especificamente o Metilfenidato) no processo de preparação para concursos. Sou um candidato que sofre de um disturbio cognitivo(TDAH) e me foi foi prescrito o medicamento Metilfenidato, comentei com meu médico a respeito deste artigo, indagando se seria benéfico a suspenção do uso do medicamento, mas ele foi contra tal suspensão. Gostaria de saber a opinião do Sr. a respeito da suspensão do uso do Metilfenidato para candidatos que sofrem de TDAH?
Desde já agradeço e aproveito para registrar meus agradecimentos ao sr. pela sua enorme contribuição para os candidatos que estão na árdua fase de preparação.
Forte abraço,
Glauber.
Caro Glauber, acho que não me entendeu bem.
O que disse foi que não concordo com o uso para quem não é adequadamente diagnosticado com DDA ou TDAH. Por outro lado, principalmente no caso da educação infantil, acho que há outras estratégias que podem ser tentadas antes da opção medicamentosa.
Porém, como psicopedagogo de formação, não censuro e não critico a adoção da medicação, prescrita por profissional habilitado, com prévio e adequado diagnóstico.
Ainda assim não descarto que se tente outros recursos.
Agora se você não sente que a medicação lhe faz bem isto de fato deve ser discutido com o médico.
Abcs!
Obrigado pela atenção, professor. Vou dar uma pesquisada em meios alternativos de tratamento do TDAH.
Forte abraço,
Glauber.
Tô postando esse depoimento em alguns site na tentativa de esclarecer e ajudar. Me sinto ridículo e envergonhado! Eu usei Ritalina por 1 ano só para estudar para concursos públicos. Embora eu não apresentasse os sintomas de déficit de atenção, eu conseguia com uma amiga médica a prescrição do remédio. FOI A PIOR COISA QUE FIZ EM MINHA VIDA! Os efeitos foram devastadores… Eu, que sempre fui muito responsável, pesquisei demais antes de usar a droga. Eu lia e relia em estudos americanos e europeus sobre os efeitos negativos da Ritalina em quem não precisava da droga mas preferi ir na onda dos amigos que estudavam para concursos que diziam “estarem ávidos para usar a droga o mais rápido possível”. Após o uso, passei a ter insônia crônica por 4 meses, cansaço, me sentia um zumbi! Tive uma ressaca enorme por conta de 1 copinho de cerveja, me deu vontade de morrer! O estudo não melhorou em nada. Não fiquei mais inteligente. Eu notei apenas que ficava mais calado, mais sério, não fazia brincadeiras habituais, não me levantava da cadeira por besteira e só. Para controlar a insônia, o médico me receitou Rohypnol. Ainda bati o carro pois perdi a noção de espaço e velocidade! Eu era normal e fiquei anormal. Usei a droga insistentemente por 1 ano. Depois dessa tragédia, assimilei que RITALINA NÃO FAZ EFEITO POSITIVO NENHUM EM QUEM NÃO TEM TDAH, exatamente o que diziam os estudos mais sérios. O psicólogo que me trata hoje (nunca tinha ido, mas é pra tentar arrumar parte do estrago) me disse que o meu caso é mais comum do que eu imaginava. Os relatos são os mesmo, sempre, segundo ele. Ah, e quem não tem TDAH e usa a droga dizendo que faz efeito, ou é só um placebo ou então está mentindo. Ritalina só vai te dar uma insônia desgraçada e vai te manter sentado na cadeira. Quem não tem problemas de concentração, NÃO PRECISA DE DROGA PARA SE CONCENTRAR MAIS, NÃO DÁ PRA FICAR SUPERPODEROSO! É LENDA CONTADA POR GENTE MUITO IRRESPONSÁVEL. RITALINA É UM REMÉDIO MUITO SÉRIO. Espero ter ajudado.
Caro André,
Parabéns pela iniciativa, de compartilhar sua experiência com os demais, inclusive com os detalhes que levaram à atitude comentada.
O empirismo de quem vive a realidade é fundamental para mostrar a verdade aos demais.
Alguns dos meus colegas da minha pós em psicopedagogia me sugeriram experimentar o metilfenidato (ritalina), inclusive para que tivesse mais condições de criticar. Recebi os comprimidos, mas não tomei.
Pelo menos agora tenho no Blog um relato pautado pela experiência de alguém.
Também manifesto minhas congratulações pelas atitudes que tomou, no sentido de contornar e resolver o problema criado.
Suas colocações vão iluminar muitos que andam pedidos nas trevas ilusórias da busca do almoço grátis e com efeito colateral!
Sucesso nos estudos e na superação dos estragos do uso indevido do metilfenidato!
Abcs!!!
Ola Professor e demais colegas,
eu fui diagnosticada com transtorno do deficit de atencao e tomo ritalina ha alguns anos… comecei a tomar antes de me tornar concurseira…
mas, antes, eu tomava com menor frequencia, ja que a minha medica sempre me disse que poderia tentar tomar menos, de acordo com minha necessidade..
nessa epoca de estudos, eu tenho tomado ritalina diariamente, tudo com acompanhamento da minha medica, uma psiquiatra formada em universidade internacional de grande renome, o que me deixa tranquila..
Todavia, eu tenho as vezes a impressao, talvez por influencia de relatos que leio na net, de que usando a ritalina eu memorizo menos as informacoes da minha leitura… seria isso plausivel? o senhor teria alguma informacao nesse sentido?
Tambem queria explicar que com a ritalina a gente nao le mais rapido, nem nada disso… eu sempre tento estudar sem tomar o remedio… apenas quando vejo que estou totalmente alheia ao livro que recorro a mesma…
Enfim, nao gosto de ter que usar este remedio.. atrapalha meu sono, altera meu humor… mas, pelo menos por enquanto, o tratamento e necessario para mim…
Grande obrigado pelas postagens….
desculpem a falta de acentos.. meu pc esta desconfigurado!
Cara Cissa,
Se você foi diagnosticada, por profissional habilitado e por meio de procedimentos adequados, temos que partir da premissa de o tratamento vai no caminho certo, inclusive contando com uma estratégia de desmame.
Porém, lembro que, conforme publicado no livro “Transtornos da Aprendizagem: uma abordagem neurobiológica e multidisciplinar”, em 25% dos casos de TDAH a ritalina não gera uma boa resposta.
De qualquer forma, o objetivo do texto é alertar o uso sem necessidade e carente de diagnóstico.
Abcs!
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