Vale a pena utilizar a leitura dinâmica nos estudos para concursos públicos e exames? Vale a pena investir na compreensão e domínio desta forma de leitura? Qual a eficácia e o custo-benefício? É eficiente?
O objetivo do presente texto consiste em na apresentação de algumas considerações e ponderações sobre a leitura dinâmica, bem como sobre a conveniência ou não de sua aplicação aos estudos para concursos públicos e exames.
Primeiramente, registro que faz um bom tempo que venho refletindo e pesquisando o tema, bem como avaliando a pertinência de escrever sobre o assunto, expondo as considerações que serão tratadas no texto, por considerar delicado e polêmico. E saliento desde já que, como em relação a todos os outros temas trabalhados, a intenção não é apresentar verdades absolutas e universais, mas apenas e tão somente, de forma humilde, tecer ponderações e provocar reflexões, para que, a partir daí, cada um tire as suas próprias conclusões, considerando sua realidade e particularidades.
Por outro lado, também há uma intenção de alerta, principalmente considerando que neste universo da preparação para concursos públicos e exames existem “especialistas” (sem especialização) apresentando soluções aparentemente milagrosas, com credibilidade duvidosa, principalmente diante da falta de fundamentos e cientificidade.
Todos passamos atualmente pela angústia, por vezes desesperadora, relacionada ao tempo. Estamos sempre em busca do aumento na velocidade de leitura. Principalmente considerando que vivemos a era da velocidade, na qual tudo deve ser rápido, fácil, ir direto ao ponto, ser pouco oneroso e, de preferência, grátis. Não apenas em termos financeiros, mas inclusive em termos intelectuais e cognitivos.
No caso da preparação para concursos públicos essa angústia é ainda maior. Inclusive, mesmo tendo superado tal etapa, nunca deixei de viver essa angústia. Sempre que estou cumprindo a minha rotina de estudos, até hoje, tenho a sensação de que gostaria de ser mais rápido, para poder consumir cognitivamente mais. A fome de conhecimento é insaciável!
Porém, quando me preparava para concursos públicos o problema era maior. Todos os dias tinha vontade de ser uma máquina cognitiva para estudar tudo muito rapidamente, de modo a poder avançar ainda mais no edital e nas fontes de estudo. Se havia uma prova marcada o desespero aumentava!
Se você passa por isto e se identifica com o que estou dizendo, saiba que sei exatamente o que sente, pois vivi – e de certa forma ainda vivo, intensamente estas sensações.
Portanto, é ponto pacífico que queremos aumentar nossa velocidade de leitura e estudo em geral.
Daí, quando aparece uma solução que vem atender este legítimo e natural anseio, estamos de braços abertos e com total receptividade para abarcá-la.
É nesse contexto que precisamos avaliar e refletir sobre a leitura dinâmica, bem como sobre qualquer outro recurso ou solução que prometa o aumento da nossa capacidade de leitura e cognição.
Muito bem, inicialmente, precisamos partir do conceito de leitura, na sua concepção tradicional. Conceitualmente, segundo o neuropsicólogo português Vitor da Fonseca, a leitura “… implica em processar letras que têm categorizações fonológicas específicas para serem decodificadas e compreendidas. De um processo de captação visual, o cérebro tem em seguida de categorizar formas de letra com sons, por meio de processos auditivos complexos a fim de inferir significações cognitivas contidas em palavras que compõe um texto” (Cognição, Neuropsicologia e Aprendizagem. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 153).
Adotando uma abordagem mais ampla, conforme sustenta a professora espanhola e psicóloga educacional Isabel Solé, em obra específica sobre estratégias de leitura, há três modelos para a compreensão do processo de leitura, os quais correspondem ao ascendente (bottom up), descendente (top down) e interativo (Estratégias de Leitura. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 22).
No modelo ascendente ocorre uma decodificação de cada parte do texto, ou seja, letras e palavras, partindo das partes e passa-se à compreensão do todo. No modelo descendente, as partes e a decodificação perdem importância, diante da preocupação exclusiva com a compreensão do todo. Já no modelo interativo, ostentando caráter misto, existe a preocupação em compreender o todo, sem deixar de ter importância a decodificação.
É exatamente no modelo descendente puro que se situa as estratégias de leitura dinâmica.
Outro conceito importante para a compreensão do processo de leitura consiste na idéia das rotas de leitura.
Teoricamente, existem duas possíveis rotas de leitura, quais sejam, a rota fonológica e a rota lexical. Na primeira (fonológica), após a captação visual das letras e palavras há uma conversão sonoro-mental de sílaba por sílaba ou letra por letra, para depois avançar a decodificação. Na rota léxica, do contato visual da palavra já se passa à decodificação, sem se importar com as letras. (ASSENCIO, Vicente J Ferreira. O que todo professor precisa saber sobre Neurologia. São José dos Campos: Pulso, 2005, p. 46).
Quando vemos a frase “o sbão etsá mituo pqno” e lemos como “o sabão está muito pequeno”, estamos utilizando a rota lexical.
Também no caso da leitura dinâmica há uma prevalência de uso da rota lexical.
Em termos lingüísticos, as letras são unidades que vão compor palavras, sendo que as palavras são unidades de significados que vão compor textos. Assim, as referidas unidades somente podem fazer sentido quando agrupadas.
Com a leitura dinâmica procura-se adotar uma lógica seletivo-excludente quanto aos códigos-letras que formam as palavras e as palavras que formam o texto.
Neste sentido, considero que tal sistemática, quanto ao presente aspecto, pode gerar um risco de comprometimento do contato consciente com letras e palavras importantes. Um exemplo no caso de matérias jurídicas seria trocar remissão por remição ou mandato por mandado.
Mas diante dos mencionados esclarecimentos e considerações, a grande pergunta que continua sem resposta é: vale a pena?
Bem, como já esclarecido, não darei esta resposta. É você deve encontrar a sua própria resposta a partir dos elementos trabalhados.
Uma primeira questão relevante a merecer consideração e reflexão crítica consiste na avaliação da tese de que a velocidade do movimento lateral dos olhos determina o aumento da velocidade da leitura. Minha aposta é de que esta hipótese não se confirma. Não acredito na existência de fundamentos que indiquem a verdade quanto a isto.
O primeiro fundamento é de que, na realidade, não lemos com os olhos. A retina apenas capta a imagem. Lemos, na verdade, com uma parte funcional do cérebro chamada córtex do processamento visual. E nesta atividade também há algum envolvimento do córtex auditivo. Tudo isto fica localizado, em termos de estrutura anatômica, no lobo ociptal.
Daí porque alguns neurocientistas costumam afirmar que lemos muito mais com o lobo ocipital do que com os olhos.
Outro fundamento, quanto à não confirmação da hipótese de que a velocidade de movimentação dos olhos determina a velocidade da leitura, seria considerar que, caso fosse verdade, os portadores de dislexia poderiam resolver o problema treinando a movimentação dos olhos. A dislexia consiste num distúrbio de aprendizagem, correspondendo à incapacidade de decodificação de letras. Para entender um pouco mais sobre este drama, sugiro o espetacular filme indiano denominado “Como Estrelas na Terra” (clique aqui para mais informações sobre o filme, que vale muito a pena assistir).
Mas resumindo, entendo que não há fundamento para sustentar que a velocidade dos olhos não se confunde com velocidade de decodificação de palavras.
Exatamente nesta direção, corroborando a referida tese, conforme sustentam os psicólogos cognitivos Michael W. Eysenck e Mark T. Keane, em tratado de psicologia cognitiva, “…temos a impressão de que os nossos olhos se movem suavemente através da página enquanto lemos, mas a impressão é um tanto equivocada…”. (Psicologia Cognitiva. : Artes Médicas, p. 272).
A tese dos referidos autores serve de fundamento para a minha principal suspeita ou hipótese quanto à velocidade da leitura: considerando o fenômeno da plasticidade, quanto mais estudamos e lemos, mais naturalmente aumentamos nossa velocidade. A plasticidade envolve a idéia de que quanto mais demandamos nossas atividades cognitivas e cerebrais, mais temos capacidade de dar respostas.
O que quero dizer com isto é que, mesmo sem a incorporação de técnicas classificadas como de leitura dinâmica, aquele que se mantém empenhado e disciplinado nos estudos, naturalmente, aumentará cada vez mais a velocidade de leitura. Isto em termos neurofisiológicos.
Por outro lado, quanto mais estudamos, mais aumentamos o universo de informações intelectualmente apropriadas e o nosso universo semântico, o que tende a facilitar a apropriação de novas informações relacionadas. Trata-se do que venho chamando de fenômeno da “Aprendizagem em PG (progressão geométrica)”. E fundamentos para isto existem de sobra.
Basta pensar no modelo de aprendizagem segundo Jean Piaget, para quem este processo ocorre por meio da assimilação (checagem da relação entre o conhecimento novo e o já disponível) e da acomodação (apropriação do novo). Adotando as construções de Alexander Luria, clássico neuropsicólogo russo, quando estudamos um novo conhecimento relacionado ao que já sabemos ocorre o fenômeno do encurtamento da rota cognitiva, quanto à percepção e captura da informação.
Isto também resulta em aumento da velocidade de leitura.
Portanto, esta pretendida condição tende a aparecer de forma natural. E existem limites a serem respeitados.
Na realidade, o que estou a sustentar é que toda leitura é dinâmica. E este caráter dinâmico aumenta na medida em que avançamos em determinado objeto de conhecimento.
Por exemplo, a minha leitura de textos sobre Direito ou Processo do Trabalho é mais dinâmica que de textos sobre Direito e Processo Penal. Da mesma forma, a minha leitura sobre textos de psicologia cognitiva e neurociência é mais dinâmica que de textos de psicanálise (mesmo tendo simpatia pelo tema, não tive condições de investir muitos estudos nas construções de origem freudiana). Ainda no mesmo sentido, os textos que leio sobre gerenciamento de projetos e finanças tendem a contar com um dinamismo maior que os textos sobre outras áreas da gestão, dada a formação que tenho também na referida área.
E exatamente neste sentido, os psicólogos cognitivos antes mencionados (Michael W. Eysenck e Mark T. Keane), ao tratarem da velocidade da leitura, colocam que “…o tempo de fixação em uma palavra é afetado pela quantidade de processamento semântico que é exigida para entender a palavra no contexto de sua frase…” (ibdem, p. 274).
Contudo, partindo da hipótese de que estou equivocado, ou seja, de que existem ganhos reais com a leitura dinâmica, em termos de velocidade, independente da plasticidade e da ampliação da base de informações apropriadas, as questões que se colocam são: (1) qual é o tamanho deste ganho? Existem indicadores e pesquisas com parâmetros estatísticos precisos e amarrados que tenham mensurado? (2) quanto custa, em termos de esforços processuais e de tempo, o investimento para o domínio da técnica?
Se o resultado da equação for positivo, vá em frente! Se não, siga o caminho do avanço natural.
O certo é que não se pode buscar o presente recurso sem uma avaliação racional, ponderada, pessoal e subjetiva. Além disto, acredito que ninguém deixará de passar no concurso público ou exame por não ter buscado o presente recurso. Eu e muitos outros candidatos de êxito somos exemplos vivos disto. Aliás, poderia ser indagado aos defensores e propagadores do presente recurso em quantos e quais concursos foram aprovados, utilizando este processo de leitura na preparação.
Mas o fundamental é sempre procurar ter racionalidade na implementação de esforços, avaliando a eficiência de cada caminho adotado. E não se iludir com os sedutores ganhos fáceis apresentados pelos vendedores de ilusão, especialistas sem especialização, pois “não há almoço grátis”!
A intenção do texto é apenas e tão somente contribuir neste sentido.
E mais do que isto: é importante tentar sempre minimizar, controlar e neutralizar o compreensível desespero com a busca do aumento da velocidade de leitura e cognição, mas sem deixar de ter disciplina.
Boa leitura, dinâmica, estática ou normal!











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Prof Rogerio Neiva, como já vi por aí, a verdade nos liberta!
Estava pensando nisto um tempo atrás, se valeria a pena investir mas desconfiava e queria ouvir o que o texto diz.
Vou seguir o caminho da evolução natural.
Obrigado pelo trabalho e um forte abraço!
A evolução natural que é gradativa né cara ?
Assim com o passar do tempo e uso constante ela tende-se a expandir
Na minha academia tinha um cara que tomava anabolizantes e dizia que quem crescia natural era planta, justificando a atitude dele com esta frase.
Hoje ele passa a maior parte do tempo no hospital e não passa nem perto da academia.
Como eu achava continuo achando e o texto me ajuda a saber que estou no caminho certo. O ser humano também cresce de forma natural. E este e o melhor crescimento.
Estou estudando com forte e não quero atalhos.
Muito bom o texto prof! Profundo e fundamentado, como o sr sempre faz para nos ajudar a entender como devemos estudar.
Valeu!
Prof Neiva, obrigado por mais um texto esclarecedor e com fundamentos.
Uma vez ouvi alguém dizer que o seu trabalho é a Virada de Copérnico dos concursos públicos. Isto é a mais pura verdade.
A preparação para o concurso se divide antes e depois do seu trabalho, o que significa a diferença entre o mundo do achômetro e o mundo das orientações com ciência e fundamento.
Concurseiro que está em busca de especilista animador de audotório, que não tem consistência nenhuma, recomendo que nem perca tempo no seu Blog.
Aqui é só o pessoal que leva a sério e não quer circo, mas estudo!
E sem conversinha de fórmula mágina.
Abraços!
Ronaldo
Prof, também gostei muito do texto. Inicialmente fiquei meio assustada com o tamanho, mas depois que começei não parei mais.
Nunca fui tentada a estas estratégias e sempre fui desconfiada.
Mas quando ouvimos o canto da sereia é tentador e fimamos com medo de não estar aproveitando algo que ajudaria.
Estou mais convencida ainda que quero o caminho da evolução natural. E sei que meu conhecimento vai neste ritmo que o Sr fala da aprendizagem em PG.
Concordo com o Ronaldo, a galera aqui não quer showzinho de palhaço de animador de auditório. Queremos passar, esforçar, aprender de verdade, sem cortar caminho e pagando o preço. Somos da turma que faz parte dos 5% que passam.
Os 95% ficam com os especialistas que o Sr critica.
Bjs a todos!
Tati
Muito bom e fundamentado o texto.
Caramba, quanta teoria e fundamentos para refletirmos sobre o tema tratado.
A principal verdade do texto é que estamos sempre querendo facilidade, mas não tem atalhos.
Excelente o texto, professor!
Eu também acredito na evolução natural, mediante técnicas certas de aprendizagem, disciplina e repetição.
Repudio fórmulas mágicas, principalmente as que prometem soluções imediatas.
Acredito sim no esforço e na disciplina, verdadeiros pilares na construção do conhecimento.
Pessoal, agradeço os feedbacks e incentivos à manutenção do trabalho de pesquisa e produção intelectual.
A intenção, como dito no texto, era provocar a reflexão, seja se convencendo as posições já assumidas, seja reavaliando.
Abraços a todos!
Professor Rogério, eu ouso em discordar dos demais colegas. Li e estudei pelo método de Evelyn Wood, que, se não me engano, foi a pessoa a desenvolver a ‘leitura dinâmica’ na década de 50 a 60 (inclusive foi ela quem criou essa expressão). Cada um sabe onde o calo aperta, e eu, assim como o sr., tenho essa angústia de não conseguir ler e aprender tudo que eu posso num curto espaço de tempo. Eu sabia que poderia ler mais rápido, com uma compreensão alta, mas não sabia as técnicas, até descobrir a supracitada professora. Também acho que é pelo esforço que se aprende e se passa em concursos, como o pessoal falou, mas não acho que é me acomodando com meu ritmo ou tempo de leitura, juntamente com o esforço diário, que vá se tornar o único caminho para se chegar lá. Ou melhor, simplesmente no ritmo da vida. Eu busco outros caminhos; não fáceis, bem mais produtivos. Acredito que essa ‘bomba’ cerebral (a despeito da famigerada bomba muscular) me faz bem. Até agora não precisei de hospital.
Caro Diego, seu relato corrobora uma das principais compreensões sustentadas no texto, no sentido de que não há verdades absolutas sobre a cognição humana.
Se para você a adoção do mencionado recurso é eficaz e eficiente, ótimo! Apenas pondero que é importante que esta conclusão seja firmada com parâmetros ou elementos psicométricos comparativos.
Quanto ao comentário sobre a bomba muscular, acredito que tenha sido uma comparação metafórica. Até porque, até onde sei, não existe uma substância famacológica que produza uma super cognição, do tipo uma “turbinação” cerebral, expressão comum de ser adotada. Assim, drogas cognitivas que garantam super poderes intelectuais só em filmes de ficção científica, como o “Sem Limites”, com Bradley Cooper e Robert de Niro.
Sim, professor, foi uma metáfora, no sentido de estímulo ao cérebro, como uma ‘bomba muscular’ o faz com os músculos. No caso, o estímulo cerebral se faz com árduo esforço, diariamente, e não com simples medicamentos.
Concordo Diego! Isto envolve o espetacular fenômeno da neoroplasticidade. Mas no comentário anterior, de autoria do Joaquim, se não entendi errado, a referência dele foi à bomba no sentido farmacológico mesmo, e não do esforço.
Abcs!
Meu voto vai para a leitura estática e de qualidade.
Devagar e sempre, sei que chego lá. É a velha teoria das filas, mas que só vale para quem estuda firme.
Prof Neiva,
gostei das teorias trabalhadas. Nunca tinha pensado nisto. Nós não aprendemos como se aprende na escola ou na faculdade.
Por isto existem os especilistas que o Sr tanto critica e combate. Conte com meu apoio!
Olá Prof e Diego,
Eu já estava pensando em comentar e de fato já foi comentado: nem muito ao céu nem à Terra. Talvez a confusão com essa história de leitura dinâmica seja a ideia de que batesse o olho e já captasse tudo que o texto informasse. Acredito que na verdade seria uma junção de várias coisas mencionadas: técnicas específicas de melhoria da leitura, gosto pelo que se está lendo e também a crença de que se está fazendo algo que vai ajudar na leitura (efeito placebo), porque não. Eu acredito que técnicas específicas ajudem de fato mas é também possível que não funcionem para todos, como mencionado. Deve-se verificar por cada um, assim como mapas mentais não é para todo mundo, cartões com resumos, palavras-chave pregadas no teto etc etc, nenhuma técnica funciona isolada ou como mágica.
Gostar de estudar é algo que se aprende desde pequeno ou que se corre atrás depois que cresce, mas é somente dessa forma que se garante o aprendizado e a aprovação nos concursos, como você sempre reforça nos textos.
Continuemos a aprender então, futuros servidores de muito melhor qualidade.
Rogério, minha contribuição particular vem da Filosofia, do Piaget, do Luria e da Psicologia Cognitiva. Quero citar um trechinho do texto de Fernando Becker, in Revista Educador, Concepção Epistemológica e prática pedagógica: “A crítica, científica e filosófica, encontra-se tão debilitada ou omissa que não consegue mais distinguir um texto acadêmico de um texto de autoajuda. Recentemente, um megacongresso educacional escalou, para a palestra de abertura do evento, um sucesso editorial de autoajuda (…)” . Claro esta frase está fora do seu contexto, mas quero emprestar do Becker um termo providencial “patrulhamento ideológico”. Pois bem, concordo que há uma distorção profunda do que é “aprender” e, portanto, falar de leitura dinâmica é falar de um engodo que oferece soluções enganosas. Entender uma idéia, um conteúdo vem sim de uma “rota natural”, quanto mais nos empenhamos, estudamos… mais rápido é o entendimento e as associações… e… demandam tempo…. contraditório pode aparecer, mas a educação brasileira está na contra-mão da história: não sabe se responde ao que é humano, ou fica refém de concursos, exigências de uma estrutura que responde ao poder….. Uma grande preocupação para todos nós, envolvidos direta ou indiretamente à aprendizagem e à educação.
Cara Tânia,
Obrigado por sua valorosa contribuição à reflexão.
O texto não contava com pretensões acadêmicas, mas apenas trazer elementos à reflexão dos candidatos a concursos públicos, os quais estão sempre vulneráveis às soluções de fundamentação e consistência duvidosa.
Mas saliento que sempre tenho chamado a atenção para este fato aos colegas da academia, que estudam e pesquisam na área da educação, da psicologia cognitiva e da neurociência aplicada à aprendizagem. Inclusive dos nossos colegas de turma na especialização em neuroaprendizagem.
Infelizmente, tenho a impressão de que o pessoal da academia não está muito preocupado com isto. Já ouvi um amigo, doutor em psicologia cognitiva, professor e pesquisador, dizer que se as pessoas querem ser enganadas, que sejam. Não acho que o caminho seja este.
Por isto, de forma especial, agradeço a sua iniciativa de sair do seu espaço acadêmico e vir aqui colaborar com a reflexão dos concurseiros.
Abcs!
Ola, gostei muito do texto, e acredito que todo metodo e valido para leitura, mas sem esforco e dedicacao,nada se alcanca.
Acredito que melhoraria muito a dinâmica se o Senhor Professor Rogério citasse quem ele identifica como vendedores de ilusão. Com os fundamentos citados não há porque temer algum possível dano moral, e facilitaria muitos os concurseiros que ficariam em alerta quanto a tais autores.
Eu particularmente exercito sim movimentos oculares como treinamento, e acho a técnica ótima, não me custa nada, inclusive faço em momentos de relaxamento, momentos que não tenho condições de estudar devido o trabalho, e vejo progressão nos meus estudos.
Agora eu não desperdiço meu tempo desenvolvendo estatísticas, verificando vetores que influem ou não no meu aprendizado de forma metódica. Deixo isso para o Senhor que resolveu se especializar, inclusive me voluntario em participar da pesquisa, caso resolva demostrar isso estatisticamente.
Abs!
Caro Daniel,
Primeiramente, esclareço que minha produção intelectual e tentativa de contribuição é pautada pela abordagem objetiva, impessoal e conceitual. Minha intenção é sustentar conceitos, idéias e teses, de maneira não subjetiva e sem adjetivar pessoas determinadas.
Por este motivo não cito nomes. Inclusive, não estou preocupado com as pessoas, até porque as pessoas passam e os conceitos ficam. Minha preocupação é com conceitos e posturas, independente de que as sustente, o que, para mim, pouco importa.
Assim, entendo que cabe a cada um avaliar o que é melhor e mais adequado para si, bem como a quem irá seguir.
Da mesma forma que não dou respostas no sentido do que deve ou não ser feito, jamais apontarei quem não deve ser seguido. O que me disponho a fazer é dar subsídios para que cada um identifique quem trabalha de forma responsável, séria, ética e, acima de tudo, fundamentada, respaldada em fundamentos de credibilidade, e quem não trabalha desta forma.
Entendo que as pessoas têm todo o direito de também seguir quem não trabalha da forma que entendo adequada. E neste ponto também entendo que quem quer ser enganado, tem o direito de se deixar ser enganado. Jamais vou tirar de alguém este direito ou deixar de respeitar quem tenha esta opinião. Ainda que me reserve o direito de ter a minha própria opinião e a manifestar.
Quanto ao movimento dos olhos, conforme exposto no texto, estou plenamente convencido de que isto não traz nenhuma repercussão na atividade cognitiva. E acredito, também com toda a convicção, nos fundamentos colocados no texto. Estou plenamente convencido de que não há, em termos cognitivos e neurofisiológicos, qualquer construção, pesquisa, estudo ou dado que diga o contrário. E não sou apenas eu que estou sustentando isto.
Aliás, antes de publicar este texto passei para vários professores que tive na minha pós em psicopedagogia e da pós que faço em neuroaprendizagem, de psicólogos cognitivos a neurocientistas e médicos neurologistas.
Neste sentido, tenho plena convicção de que este não é o fator que determina a sua evolução nos estudos. Aliás, a tese do texto é de que a evolução é sempre natural para quem estuda. Também não podemos ignorar o “milagre” do efeito placebo.
É o que penso e acredito.
Quanto às estatísticas, para firmamos conclusões, precisamos de parâmetros estatísticos. Não posso acreditar num estudo acerca da cognição humana que não seja baseado nisto. Salvo se envolver exames de imagem, o que ainda assim depende de uma população e amostra pesquisada.
Acredito que esta seja a diferença entre o achismo e afirmações com fundamento.
De qualquer maneira, tenho minhas convicções, mas também carrego a humildade intelectual de que é preciso sempre estudarmos e não termos a pretensão do monopólio da verdade absoluta, o que não impede a investigação da consistência da verdade que se contrapõe à que sustento.
E manifesto votos êxtio!
Opa.
Eu sou adepto da evolução teleguiada e forçada. Em quase tudo hoje em dia não há a necessidade da compra ou da realização de cursos. Às vezes a realização do curso é apenas por motivos inerciais.
Meu caso. Estou durante 1 semana forçando a leitura mais rápida. Estou tendo ganhos surpreendentes. Não preciso ler 2.000 palavras por minutos, mas com o meu aumento de velocidade já consigo vasculhar um livro em busca de uma informação que eu preciso, afinal nos livros não contamos com a ajuda do Ctrl + F.
Rogério, já li muita coisa na internet e sempre não concordava. Comecei hoje a ler alguns artigos seus no CorreioWeb (5) e já busquei o seu blog e li rapidinho (opa, leitura quase dinâmica) esse artigo aqui. Cara, você é o KRA! Sempre pertinente, nunca coloca A resposta, mas sim abre dimensões para bons entendedores descobrirem que não existe verdade absoluta.
Quando você disse em outro artigo que deve-se estudar antes da prova pra manter as coisas dentro da cachola, a ficha caiu: “Finalmente alguém que falou algo verdadeiro”.
Isso me lembra do vestibular para a federal do Piauí, que estudei antes da prova depois de 6 meses sem estudos. Muitos caçoaram, desaprovaram, mas fiquei com ótima pontuação e respondendo muitíssimas questões em decorrência daquela última visualizada.
Bem, você conseguiu minha admiração por quebrar diversos mitos.
Impressionante que tudo que penso você fez um artigo sobre.
Que tal agora um artigo sobre as pessoas que você já tentou ajudar? Já tentei ajudar muita gente, mas infelizmente, elas mesmas não se ajudam. Se eu cheguei até meu nível de conhecimento sozinho, sem ninguém me ajudando, buscando informações, pesquisando, será que as outras pessoas não teriam capacidade para tal? Bem, isso é um desabafo de como vejo muitas pessoas que tentei ajudar desde a época da faculdade, mas elas nunca se dedicam o quanto deveriam.
Grande abraço.
Felippe
Fiz um curso de leitura dinâmica e não vi melhora alguma. Insisti no assunto e comprei alguns livros de treinamento, continuei com a mesma velocidade.
Passei a opinar aos amigos que isso não funciona. Estou lendo mais rápido sim, mas, como dito no texto, isso se deve ao hábito.
Uma das coisas que logo de início me fizeram desacreditar na leitura dinâmica, como propagada, é que dizem para não repetir mentalmente a palavra lida, mas ninguém explica como fazer isso.
Caro Altamir, pela teoria do neuropsicólogo Vitor da Fonseca, acho que ler sem que ocorra a repetição mental da palavra é impossível.
Pensando no processo no plano neurofisiológico, em função da participação do cortex auditivo, também acho inviável. E repare que o fato do aparelho auditivo ter problema não quer dizer que o cortex auditivo tenha. Aliás, o implante coclear vem exatamente para suprir a limitação do aparelho auditivo.
Inclusive, li no livro do Miguel NIcilelis que uma das premissas que ele adota no projeto “Walk Again” vai por este caminho.
Além disto, se raciocionarmos com base nas construções do Antonio Damásio, um dos maiores neuricoentistas da atualidade, a tese das imagens mentais também impede que não ocorra a referida atividade.
De qualquer forma, a reflexão é válida.
Parabéns por buscar otimizar seus esforços, mas procurar ser crítico na análise da eficácia!
Abcs!
Muito bom o texto. Eu que já fiz um treinamento prometendo a tal leitura dinâmica cheguei a algumas conclusões parecidas sobre a leitura ser melhor de textos da minha “zona de conforto”, ou seja, os temas que tenho mais bagagem.
Prof. Rogério, parabéns pela escolha polêmica do texto.
Sou concurseiro há 3 anos, mas venho estudando leitura dinâmica há mais de 5 anos. Já li alguns livros e experimentei alguns métodos.
Iniciei com um método americano que peguei emprestado de uma amiga. Tratava-se de um kit muito antigo (imagino que ela o tenha adquirido em 1980) com 6 fitas cassetes e três grandes apostilas, quadro horário, tabelas para cálculos de palavras por minuto etc. Vinha numa maleta tipo 007 (material caro e moderno para a época).
O curso vinha com um calendário que exigia dedicação por quatro semanas, mas, por três vezes, tive de recomeçar o curso porque não conseguia atingir o nível exigido de compreensão para iniciar a quarta semana.
O método se baseava no fato de que o nosso cérebro consegue captar muito mais do que percebemos, assim, o que precisávamos era desenvolver a técnica de buscar a informação que foi está gravada no inconsciente – enquanto você lê essa contribuição, por exemplo, um cheiro, uma temperatura, um som e outras sensações estão sendo armazenadas no seu inconsciente (olhe ao seu redor agora e perceba).
O autor do método era um americano com o poder da “leitura fotográfica”. Ele conseguia “scanear” mentalmente a página e podia responder sobre qualquer coisa que estivesse contida naquele texto, pois sabia como recuperar a informação do inconsciente. O método ensinado não era fotográfico, mas ele dividia a página em vários pedaços (linhas) e os montava no inconsciente para posterior recuperação da informação.
Em alguns exercícios, por exemplo, tínhamos de ler três linhas por vez a cada batida do metrônomo. O que é inconcebível na leitura tradicional.
Quando comecei a estudar para concurso, minha velocidade de leitura com completa compreensão estava 5 vezes melhor do que quando comecei a usar o método de leitura dinâmica, porém, nunca consegui terminar o curso e, minha compreensão ficava comprometida. Achei que o método estava me atrapalhando e, por isso, resolvi dá uma parada até minha aprovação.
Na minha colaboração com o seu texto, quero registrar que tenho certeza de que a leitura dinâmica pode ajudar muito no estudo para concurso, mas ela deve ser aprendida antes de se começar com os estudos, pois se trata de uma mudança no hábito da leitura. Depois que você dominar a técnica (e não é fácil), vale a pena investir num concurso público.
Tem concurseiro que faz exercícios de leitura dinâmica pela manhã e, quando vai estudar para concurso, diminui o ritmo para conseguir maior entendimento. Na minha opinião, ele não vai passar no concurso e nem vai aprender leitura dinâmica.
Você pode até melhorar, como eu, a sua velocidade de leitura e compreensão, mas se não dominar a técnica de busca a informação no inconsciente, você será, simplesmente, um “passador rápido de olhos” que busca uma vaga num concurso público.
Obrigado pela colaboração Heimar!
Depois quero entende um pouco mais sobre este método…
Abcs!
Olá Professor Rogério Neiva!
O mencionado método do amigo – tenho quase certeza – chama-se “photoreading”. Seu defensor diz que é possível ler 25.000 palavras por minuto haha Chega a ser hilária a afirmação…
Não aguentei de curiosidade e dei uma olhada, mas não me convenci e desisti há muito tempo atrás.
Vim aqui relatar umas coisas pra tentar contribuir com a discussão e depois pedir seu conselho professor, pra um problema pessoal.
Eu acho que a velocidade de leitura não é algo tão relevante, mas sim o quão concentradamente (memorizando) você é capaz de ler. Vou tentar apontar os fundamentos. Digamos que você leia muito devagar, mas tenha uma concentração tão forte que seja capaz de memorizar 90% da leitura. Bastaria uma leitura de uma doutrina de cada matéria e você estaria preparado em altíssimo nível. O grande problema – parece-me – é ler, em qualquer velocidade, e depois esquecer. Eu tenho certeza que se soubesse 70% do que aprendi na faculdade, hoje eu teria um conhecimento absurdo. Ao longo dos cinco anos de Direito eu li todas as leis que os editais pedem, fiz inúmeras questões (seja em casa estudando ou na própria avaliação do professor) e o mais importante: li muita doutrina e me expus a uma enorme carga horária de aulas.
Eu consigo regular a minha capacidade de leitura e acho que todo mundo consegue. Será que a gente realmente lê da mesma forma um romance e uma lei? Se você ler a lei rápido e trocar um número pelo outro, vai errar a questão…
Exemplo: “A porta do quarto bateu tão forte com o vento, mas tão forte, que acabou quebrando” (porta quarto quebrou).
Exemplo II: “A intimação dos atos referidos no inciso I, alíneas ‘a’, ‘b’, ‘c’ e ‘e’, deste artigo, excluídos os relativos a advertência e multa de mora, e no inciso III, será feita mediante publicação na imprensa oficial… (??? – aqui você é obrigado a interromper a leitura, reler todas as referências que a lei fez pra ter certeza de que você absorveu o conteúdo corretamente). Fora que esse período ainda não acabou, a lei dá a regra nessa frase, só que o período prossegue com as exceções e mais referências, tornando a leitura ainda mais truncada e cansativa!
Algo que eu fiz que me rendeu uma melhora leve na concentração foi treinar umas técnicas de memória. Eu passei a ler mais rápido porque: não precisava ler duas ou três vezes nenhum trecho e passei a “viajar” menos durante a leitura. Como isso foi há muito tempo, penso seriamente em dedicar de novo parte do meu tempo pra re-aprender…
Enfim, é isso. De toda forma, respeito todas opiniões divergentes.
E a minha pergunta professor, é a seguinte: eu sempre fui um aluno de véspera, sempre estudei a pouco tempo da prova. Por isso desenvolvi algumas habilidades nessas circunstâncias: concentração fortíssima e capacidade de absorver uma tonelada de informação. Eu chegava a memorizar inúmeros artigos da lei. Não sabia a exata dicção legal, mas sabia o conteúdo e apontava onde estava (As causas impeditivas do casamento são tal tal tal, segundo o 1521, incisos I, II e tal).
Eu sei que sou normal. Passei na primeira OAB que eu prestei (uma prova difícil, só 10% passou). Nunca reprovei uma máteria e cheguei a ganhar uma bolsa por bom desempenho.
Qual é o tal problema então? Estudar para concurso público é uma tarefa longa. Isso quem lê seus artigos já sabe bem… “Foco no processo”.
Perfeito, o que ocorre é que a minha concentração em circunstâncias normais é muito fraca. Mas muito fraca mesmo. Por mais que eu tente, mesmo quando eu tenho só o livro na minha frente, sem computador, sem barulhos, sem nenhuma distração, em um ambiente arrumado e arejado… Eu viajo! Eu começo a pensar em uma série de coisas. Quaisquer coisas.
Hoje eu estava estudando licitação e me lembrei de um jogo de computador que eu jogava quando tinha 14 anos de idade (hoje eu tenho 25). E há muitos anos não tenho qualquer referência desse jogo (não o joguei, ninguém falou dele pra mim, não vi ninguém jogando, nada).
Para dar uma dimensão da minha capacidade em perder tempo, eu marquei o quanto me levou para ler a lei 8.666/93 – a lei de licitações – e o resultado é bastante triste: 8 horas.
São 120 artigos bastante truncados e confusos, mas considerando que eu não fiz uma leitura “super concentrada” e que provavelmente terei de ler outras vezes pra não me confundir em questões, tenho certeza que é um tempo muito maior que o dos colegas aqui presentes.
Alguém aqui tem ideia de quanto tempo levou pra isso? 1 hora? 2 horas? 4? Ficaria muito feliz pra eu poder me comparar e mensurar a gravidade da minha situação.
Eu estou estudando todo dia por volta de 3 a 5 horas com esse nível baixo de concentração. Estimo que eu vá ser aprovado – nesse ritmo – em uns 5 ou 6 anos. Isso é preocupante.
Gostaria de saber se algum dos colegas já passou por algum problema parecido e o que fez para se livrar dele.
Gostaria de saber do Professor Rogério Neiva se julga que eu vá melhorar com o passar do tempo – embora já esteja nessa rotina há uns 6 meses e não vi nenhuma melhora, nem ligeira sequer – ou se poderia me propor alguma forma de lidar com isso, inclusive até tratamento (pensei em ir ao psicológo/psiquiatra) pra me livrar desse mal.
Pensei em insistir em técnicas de memória pra ver se, mesmo longe da prova, eu sou capaz de ofuscar esses pensamentos invasivos.
Também li os artigos de sua autoria sobre a falta de concentração.
Obrigado antecipadamente, Professor!