Ultimamente tenho procurado enfatizar aos candidatos a concursos públicos a idéia do foco no processo. Esta compreensão conta com alguns sentidos e tem uma enorme importância para a manutenção do empenho no processo de preparação para o concurso, tendo relação inclusive com aspectos que se encontram no plano da gestão das condições emocionais.
Inclusive, um dos motivos desta preocupação consiste na frustração que recentemente o concurso público do MPU gerou em muitos candidatos. Conforme eu já esperava, houve uma grande mobilização e, naturalmente, diante do resultado, tenderia a ocorrer frustrações com alguma proporcionalidade.
Mas afinal, qual o sentido da idéia do foco no processo na preparação para concursos públicos?
No referido contexto podemos mobilizar nossas ações e atitudes pautadas pelo foco no processo ou no resultado. Trata-se de valores relativamente antagônicos.
O candidato que se mobiliza com o foco no resultado está a todo momento preocupado com a aprovação. Está sempre pensando, em algumas ocasiões até com certo desespero e angústia, na próxima prova. Está se questionando o motivo de ainda não ter passado. Está fazendo planos de curto prazo, contando com a aprovação também numa perspectiva de curto prazo. O seu foco geralmente não é centrado na execução do seu plano de estudos, não envolve as matérias e conteúdos que está estudando. Também não consiste nas metas de estudos que possa ter estabelecido, se é que estabeleceu alguma meta de estudo de forma mais precisa.
Por outro lado, já o candidato que tem o foco centrado no processo não está tão preocupado com o resultado. Está mais preocupado com a execução do seu plano de estudos. Se tem alguma angustia, é com as matérias e conteúdos que se propôs a estudar numa determinada semana e eventualmente não conseguiu. Está mais atento à conclusão do seu planejamento de estudos do que com a prova. Este candidato pensa na aprovação e faz planos para o futuro. Mas não encara estes planos numa perspectiva de curto prazo. Está mais mobilizado pela conclusão dos estudos planejados do que com as provas e resultados.
Ou seja, um candidato foca no resultado, ao passo que outro foca no processo.
Neste sentido, a tese que venho sustentando é de foco no processo.
O foco no processo alivia tensões. O foco no processo faz o candidato viver e até curtir o momento. Estudar consiste numa atividade humana que tende a ser prazerosa. Naturalmente a depender da maneira como é trabalhada.
Há alguns meses escrevi texto exatamente sobre a preparação para concursos e o prazer em aprender, abordando conceitos sobre a cognição e a aprendizagem (clique aqui para ler o texto Como Trabalhar o Prazer em Aprender). Porém, não há dúvida de que o foco no processo também consiste num elemento importante para o desenvolvimento deste prazer em aprender.
O atleta Michael Jordan consiste num radical defensor da idéia do foco no processo. Sustenta que no jogo é mais importante o foco na bola do que no placar. Assim, defende a idéia da importância das metas de curto prazo, afirmando, na condição de autor, que “Sempre procurei fixar metas de curto prazo. Ao olhar para trás, pude ver como cada um daqueles passos ou conquista me levou à etapa seguinte” (“Nunca Deixe de Tentar”, Ed. Sextante, p. 21).
Recentemente, vi um grande executivo, professor e acadêmico na área de gestão afirmar que considerava o referido atleta um verdadeiro filósofo da Administração. Não é difícil entender o sentido desta colocação.
Portanto, na preparação para o concurso público, é fundamental o foco no processo. E o estabelecimento de metas de curto prazo consiste numa atitude importante para tanto. Exatamente esta é uma das preocupações que tive ao desenvolver o Sistema Tuctor, por meio da criação de indicadores que se traduzem em metas de curto e curtíssimo prazo.
A idéia do foco no processo consiste numa atitude mental que contribui para que o candidato viva o momento, sem se angustiar e se cobrar com o futuro. Adotando a construção de João Guimarães Rosa, “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Portanto, tente viver a travessia.
Durante a minha trajetória de candidato, houve um momento em que trabalhava com o foco no resultado. Vivia angustiado e até desesperado, entendendo que deveria passar de qualquer forma no próximo concurso. Porém, depois que mudei o foco e passei a centrar na execução do meu planejamento de estudos. Tudo ficou mais fácil. Mais fácil, mais leve e até agradável.
Recentemente uma pessoa próxima me disse que tinha vontade de estudar para concursos públicos, mas achava que era muito pesado e desgastante, que era um “sofrimento que talvez não conseguisse suportar”. Daí respondi: depende da forma como se encara. Focar no resultado é o primeiro passo para tornar a preparação um processo sofrido.
Porém, considero que na realidade não podemos ser radicais. É preciso adotar uma compreensão híbrida, de modo a não ignorar a importância do resultado, mas estarmos com o foco de nossas ações no processo.
Tente fazer um esforço para focar no processo. Tente se desarmar da pressão do foco no resultado. Viva o momento e se torne refém do seu planejamento, definindo metas de curto prazo.
E que o resultado seja uma conseqüência do processo!










18 comentários até agora. Deixe o seu.
Pós-MPU realmente tive uma recaída. Voltar pro cavalo, levantar, tentar outro round recomeçou devagar e com dificuldade. Embora este seja outro aprendizado importante, cada vez mais espero cair e me levantar depressa ou até nem cair (embora as quedas sejam frequentes em nossas vidas, então o negócio é aprender a cair com elegância e se levantar com graça).
Enfins, estou voltando ao ritmo aos poucos, tentando conciliar com as novas atividades que tem surgido pelo caminho junto aos estudos.
Que texto interessante. Concordo com o autor quando ele fala sobre a importância do foco no processo. Estudei com algumas pessoas com foco no resultado, e quando ele não surgiu elas entraram em depressão, desanimaram, perderam a motivação. Ter o foco como o sugerido alivia o processo. Vou adotar essa postura, e repassar esse texto aos colegas.
Tá aí mais uma coisa que aprendi hoje: FOCO NO PROCESSO.
Caramba, este blog foi um achado!!!
Manter o foco no processo é realmente uma boa maneira de aliviar a ansiedade durante a preparação. Porém, a ideia não é tão fácil de ser colocada em prática. No dia a dia de quem precisa trabalhar para bancar os estudos para o cargo desejado, conviver com pessoas com as quais não possui afinidade alguma, suportar um chefe menos qualificado que você, subaproveitamento das suas capacidades intelectuais no atual emprego, salário que só dá pra pagar as contas, pouco tempo para se dedicar aos livros, quando consegue comprá-los, entre outros contratempos, manter o foco no processo é muito difícil. É impossível não visualizar a aprovação, não pensar no resultado, quando a remuneração do cargo melhoraria e muito sua qualidade de vida e o seu exercício te proporcionaria muito mais satisfação na vida profissional. Pra quem já é servidor e estuda para outro cargo tem um agravante: muito do que se estuda pra concurso só existe na teoria, na prática muita coisa não se aplica e isso gera uma certa decepção. Você se sente impotente diante dos vícios que alguns servidores apresentam e da omissão das autoridades.
Caro Diego,
Concordo com suas ponderações, quanto ao cenário de dificuldade traçado, o qual não pode ser ignorado e faz parte da realidade de muitos candidatos. Eu mesmo já vivenciei uma fase como esta.
Mas a minha tese, sem a pretensão de ser detentor do monopólio da verdade absoluta, é de que exatamente nestes cenários a lógica do foco na execução do plano de estudos pode ser mais eficiente, já que o resultado dificilmente virá quando esperamos e desejamos.
Mas isto não impede que se trabalhe aspectos motivacionais relacionados ao resultado. Inclusive, um dos conceitos que trabalho, de forma fundamentada, quanto ao tema da motivação envolve a ideia da motivação por conteúdo, a partir da teoria das necessidades de Maslow.
Sucesso!
“Não basta dar os passos que nos devem levar um dia ao objectivo, cada passo deve ser ele próprio um objectivo em si mesmo, ao mesmo tempo que nos leva para diante.” Johann Wolfgang von Goethe
Parabéns pelo documentário, com certeza uns dos melhores sobre concursos públicos. Fica Com Deus
Adorei esse texto. Desde que comecei os meus estudos tenho adotado a filosofia do AA: “só por hoje”. Então, só por hoje vou ler o próximo capítulo. Com isso já estudei mais de 50% do edital de forma aprofundada e consegui dobrar minha média. Estou longe da aprovação? Acredito que sim, mas sou melhor hoje do que era há algum tempo e consegui sanar muitas deficiências. Esta semana abriu o edital do concurso que almejo, tive uma grande crise de choro por achar que não vou conseguir ser aprovada nesse. Minha solução foi conversar com um amigo e remodelar meus estudos, focando em metas de estudo possíveis. Estou muito mais calma e é gratificante chegar ao final do dia sabendo que cumpri a meta do dia.
Quero tentar manter esse espírito, para não ter outra crise de pânico.
Adoro seus textos professor Rogério.
Bons estudos à todos.
acho que o texto não pressupõe que devemos esquecer os resultados e se concentrar EXCLUSIVAMENTE no processo, o texto diz que devemos nos concentrar PRIORITARIAMENTE no processo com vistas ao objetivo (resultado).
todos esses aspectos que o colega sitou dá para utilizar como motivação (negativa, mas não deixa de ser motivação), as vezes os “não quero” motivam bastante também.
com relação ao setor público , na prática muita coisa é diferente mesmo, mas temos que fazer algo para mudar essa realidade, e o que não der para mudar aceitemos ,sem acomodação (filosofia do AA de novo). Eu mesmo trabalho numa empresa pública que os menos qualificados são os chefes (cargos comissionados), e muitas vezes a gente faz de conta que trabalha, o bom é que posso aproveitar o tempo disponível estudando enquanto os colegas ficam discutindo futebol…hehe
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